Discussões sem sentido a respeito de coisas que não fazem a menor diferença



Domingo, Abril 13, 2008

{ Novidade }



Casa nova, de novo. Continuamos aqui, eventualmente, com todos os textos antigos...

http://blogs.rpc.com.br/chatice/




Apareçam!

postado por: Letícia Junqueira - Lady Erinyes 4/13/2008 06:24:25 PM





Sábado, Abril 05, 2008

{ Lista }



Eu preciso parar de catar os cabelos que me caem. Porque é trabalho perdido, tantos são os fios. Muitos mais do que eu deixei pela sua casa. Eu tenho que comprar sal grosso, aos montes, porque agora parece que clonaram meu cartão de crédito. Mas sem me lembrar do sal no copo com incenso em cima da sua estante. E eu devia começar a fumar, porque roer as unhas é feio e eu já não sei mais o que fazer com a ansiedade. Já não posso ver você fumando na sacada, nem perdendo o cinzeiro pelos cômodos.

Tenho que comprar roupas novas, porque o frio vai começar e eu não sei se você vai me esquentar. Eu devia te perguntar isso e mais um grande balde de questões, mas a gente não conversa há quatro dias. E eu não sei quanto tempo é necessário pra considerar isso um desaparecimento, embora a polícia exija 48 horas.

Eu preciso carregar meu celular com créditos. Tanto faz, não consigo mesmo mandar mensagens pra você. E prometi não ligar pra ver se está tudo bem. Eu preciso ir ao mercado. E olhar pro Haggen-Dazs com ar blasé.

Eu tenho que continuar carregando meu nome, todo dia, a cada segundo, que é o mesmo da inominável. E é pesado. Eu devia escovar a gata, sem me imaginar te descabelando. Preciso ler jornal e não achar que aquela notícia interessaria a você.

Tenho que lavar a louça. Antes que comece a feder, como você costuma dizer. Na verdade, eu devia parar com isso tudo e ler minha Piauí que chegou hoje. Aquela revista que você achou enorme e sentou em cima pra não voar na moto. E eu preciso parar de pensar em você, porque isso definitivamente não ajuda.

Eu preciso tanta coisa, mas é difícil ser triste quando se leva a alegria no nome.

O que você devia fazer?

postado por: Letícia Junqueira - Lady Erinyes 4/5/2008 06:35:19 PM





Segunda-feira, Março 31, 2008

{ Nonsense }



O senhorzinho que cuidava do meu carro me deu um chocolate.

Simples assim. Eu estacionei na rua e, quando voltei, fui lá entregar umas moedinhas. E ele me deu um chocolate. Desacostumada que estou com a gentileza no dia-a-dia (especialmente por parte de desconhecidos), matutei ligeira: alguma coisa aconteceu e ele quer me distrair.

Nada. Tudo certo. Consciência pesada por não acreditar num gesto tão mimoso assim, em plena Sete de Setembro.

E eu vim dirigindo sorrindo, meio sem saber porquê. Preciso parar de querer entender as coisas e as pessoas. Elas sempre vão me surpreender. Como o meu vizinho, com lar quentinho, jantar, carro e família, que simplesmente ignorou meu boa noite.

A noção do mundo morreu afogada no dilúvio, só pode.


Brigada, tio!

postado por: Letícia Junqueira - Lady Erinyes 3/31/2008 09:32:32 PM





Terça-feira, Março 25, 2008

{ Três sílabas }



Tudo que eu disser vai parecer drama. E não é, ainda que pareça.

Ele chegou num sábado, sorrindo pra mim enquanto eu descia as escadas. Era diferente do que eu esperava. Não sei dizer como, mas era. Talvez mais vivo, talvez mais doce. E, sem dúvida, bem mais quieto.

Mas não foi naquela noite que ele me conquistou. Nem na seguinte. Mas uma semana depois, enquanto eu amaldiçoava a resistência do chuveiro e lembrava dele dizendo “deixa eu cuidar de você?”. Ele me entendeu muito rápido. Percebeu muito cedo que eu não faço sentido.

Eu fiquei no colo dele algum tempo, o suficiente pra me sentir aconchegada durante uma vida inteira. Ele diz que nunca mais eu fui tão frágil. Talvez ele nunca mais tenha percebido, não sei avaliar. Porque eu sei ser forte e consigo fingir ser forte, e ninguém acredita quando eu caio.

Ele se ofereceu pra fazer o que há muito tempo ninguém faz: cuidar de mim. As pessoas sabem que eu sou forte. Sabem que eu não preciso de ninguém. Ninguém quer a árdua tarefa de cuidar de alguém que não precisa ser cuidado. Ele entendeu. Não sei como, mas entendeu. Ou eu achei que tinha.

E quando ele me olhava, era como se eu sorrisse. Eram dois olhos verdes me olhando – e depois brigando comigo porque eu não falava, justo eu – e ele não era capaz de entender que aquilo me desconcertava. Do mesmo modo que eu não consigo entender, mas ele achava que eu o intimidava. Coisa demais junto. Acabávamos os dois olhando um pro outro. E, mesmo que eu sorrisse, nem sempre existia um sorriso de volta. Eu devia saber.

Sempre gostei dos braços. Fortes. Era tudo o que eu precisava, alguém capaz de me segurar. De amparar tudo o que eu sinto, mesmo que ele não saiba o que é tudo. Talvez nunca tenha sabido. E gostava de despentear o cabelo dele, só porque ele é sempre tão arrumadinho. E de rir quando ele ficava sério e brabo. Ele nunca me entendeu, eu penso agora. Ou resolveu misturar tudo. Não sei. Eu nunca soube nada sobre ele. Ele sempre foi muita imaginação. Talvez muito sonho. Precisava haver alguma coisa errada.

Em algum momento, alguma coisa que eu não sei o que é aconteceu. E eu vejo agora que eu não sei de mais coisas do que eu imaginava. Ele deve estar certo e eu realmente não sei de nada. Ele cozinhou pra mim. Riu comigo. Eu juro que fiz o que pude, mas eu não sei conviver com esse silêncio todo. Eu não sei falar sobre o que faz ciranda na minha cabeça e não ouvir nada de volta.

Em vários aspectos, ele era diferente do que eu considero homem ideal. E encaixava perfeitamente em outros. Somos tão diferentes... tão diferentes que seria difícil imaginar que nós dois estivéssemos juntos.

Vai ver é por isso que não estamos.




Update:
Gracias a Maga e Lu, pela super revisão que eu fui incapaz de fazer.


Não que eu não queira....

postado por: Letícia Junqueira - Lady Erinyes 3/25/2008 09:09:20 PM





Terça-feira, Março 18, 2008

{ Então... }



Sabe aquele endereço novo que eu passei?
Então... esqueçam. Mandei os textos de lá pra cá - e tem um texto novo aí embaixo.

Logo tem novidade (de novo, hahahahaha).

postado por: Letícia Junqueira - Lady Erinyes 3/18/2008 09:46:43 AM





{ Promessa é dívida }



Eu prometi. E apesar de bem atrasada, algumas pessoas merecem as promessas que eu faço. Ela, com certeza, é uma dessas.

Ela é a minha companheira de viagens. E esse devia ser um post sobre o Ano Novo no Rio. E vai virar tudo, menos isso. E ela vai brigar comigo, mas eu nem ligo.

Nossa especialidade é fazer coisas sem programação nenhuma, com pouco dinheiro.

(Porque a gente ainda acredita no dia em que vai ser rica e milionária e vai poder fazer as coisas na louca e com muito dinheiro.)

E assim foi, pra não fugir do que sempre é.

Acordar cedo, ônibus, aeroporto. Táxi, apartamento/escritório dum amigo nosso. E vai ser o máximo da ordem cronológica que eu serei capaz de contar.

O calor de sempre, mas agora a gente até consegue comer. No show dos Stones, primeira ida ao Rio com ela, o básico da alimentação foi sorvete do McDonalds. Isso, claro, na época que eu comia McDonalds, tomava Coca-Cola e usava tênis Nike, mas isso não tem nada a ver com a história. E garanto que se ela estivesse aqui, ela gritaria “eu não alimento a indústria da miséria!”, mesmo que ela alimente. Mas é só pra me aporrinhar, que é a função principal dela.

Você sabe que tudo vai dar certo quando sai na rua com uma pessoa vestida como a Regina Casé. E com bandana colorida no cabelo, uma coisa meio anos 80, meio Axl Rose. Não, ela não sai assim; eu saio. E ela vem comigo! Uma tarde com coelhinhos de animação encenando filmes em 30 segundos. E isso lá é coisa de se fazer no Rio? É. Eu já não aguentava mais, porque os coelhinhos insistiam em gritar a cada dois segundos. Isso tudo com pessoas ótimas, amigos do namorado dela – que na verdade é meu primo, mas que eu nunca conheceria se não fosse por ela (as pessoas, não o meu primo).

Pessoas ótimas são a especialidade dela. Assim como malucos são a minha. Uma questão de identificação, creio eu.

Samba. Sério, que diabos sou eu num samba? Quem me conhece sabe que eu nasci com dois pés esquerdos. Ela é polaca! Rá, quer enganar quem? E a gente samba que nem curitibano, mesmo que eu nem seja uma. Pelo menos eu sei a letra de vários sambas, porque eu tenho uma parte dos meus genes lá na senzala; uma pena que não é a que comanda os meus pés. Whatever. Tudo isso virou nada depois de aquelas pessoas ótimas de dois parágrafos acima resolverem fazer a “dança da galinha turbo” ou similar no meio do samba. Eu ainda sou pára-raio de lóque, você não ia achar que as pessoas ótimas eram normais...

Noite de ano novo, a gente racha um acarajé em Copacabana pouco antes da meia-noite – sobrevivendo a isso, qualquer coisa em 2008 ia ser fichinha. Praia, areia, fogos. Ela é a primeira pessoa que eu abraço e encho de beijo, como devia ser toda virada de ano até o fim da vida – e eu sei que não vai ser assim pra sempre, mas devia.

Primeiro, porque ela aprendeu a beber comigo. E esse é o tipo de aprendizado que não se tem com qualquer um, e é uma dívida que não se paga nunca. Segundo, porque eu reaprendi a levar as coisas de maneira mais calma com ela, mesmo que ela seja a pessoa mais agitada que eu conheça. Bolachinhas enquanto leio. Aprendi a comer lendo com ela, e agora meus livros vivem cheios de migalhas. Meu nutrólogo não agradece, mas eu sim.

Botecos. Metrô para moças, com visões loiras e lindas de um estrangeiro no vagão exclusivo de mulheres. Aaaaaaah, se todos fossem como ele, eu nunca pegaria um vagão exclusivo pra mulheres. E a gente chega no Pão de Açúcar, que é o lugar no mundo que mais combina com ela. É glicose, é lindo, é de rir à toa. E rir à toa é o que a gente mais faz, mesmo que eles não vendam Frutare com ipod (nem sem) na banquinha. A gente ri passando calor, ri com sede, ri bêbada, ri sóbria, ri queimando o couro cabeludo na fila, ri falando com alemães malucos atrás da gente, ri tirando fotos anos 70, ri quando vê que o dinheiro tá acabando, ri quando pega o ônibus errado, ri quando chega na praia e o sol tá encoberto. Ri comendo biscoitos Globo no Leblon ou bolinhos de bacalhau no Bar Luis, que eu nunca sei se é com “s” ou com “z”. Ri mandando mensagens pro analista – que é o mesmo das duas.

E, sem parar de rir, a gente vai à praia, toma um torrão, vai ao Cristo, toma outro torrão, chega atrasada. Fica magenta depois do banho, come muffins no aeroporto e vai sentindo dor por todo o vôo até Curitiba, com as tias da Gol sem servir suquinho por causa de uma turbulenciazinha jaguara.

É impossível, hoje, imaginar minha vida sem ela. É minha filha, e às vezes eu tenho medo de ter filhas de verdade que nem se aproximem do que eu tenho com ela.

Todos os tomates do mundo são pra ela.

A gente ri até quando chora...

postado por: Letícia Junqueira - Lady Erinyes 3/18/2008 09:38:53 AM





{ De amores e galochas }



Eu não sei o que eu estou fazendo acordada a essa hora. Não é tarde e não é cedo. E eu cogitei voltar a dormir.

Mas ele vem, me pega pelo braço e me traz até aqui. Pra não fazer nada, ficar aqui e esperar por ele, que é só o que eu tenho feito desde que eu conheci – mesmo que eu finja que não. Os dias de janeiro têm sido muito cinzas. E sempre me trazem o calor dele, com todas as cores. Cores demais, às vezes. Culpa demais. Sorrisos o tempo todo.

Mesmo que eu trema do pé à cabeça ao lado dele. E que eu não saiba muito bem o que fazer – ou saiba tão perfeitamente que qualquer outra atitude pareça completamente sem sentido. Eu fico parada olhando, pensando em tudo. Pela janela, a razão acena ao escorregar pra dentro dos bueiros, junto com aquela água toda. Se despedindo. Ele me traz aqui só pra lembrar dele. Pra sair da caixinha onde ele dorme quando eu tenho paz.

E quem diabos quer paz? Eu quero a pele, os dedos, os cabelos. O cheiro e o gosto. Às favas esse negócio de serenidade.

Chuva e garoa, por dias inteiros. Eu penso em comprar galochas. Pela primeira vez em muito tempo, eu não tenho nada a perder – a não ser meu tempo. E eu já gasto meu tempo cinza em coisas que valem tão menos a pena. Quando até a gata resolve me atacar, mais arranhões parecem fazer todo o sentido. Talvez você não entenda. Talvez goste da sua vida comum, com dias comuns, cheios de calma e sossego. Eu sou contra o sossego. O meu e o seu.

Porque se é pra chover, então eu quero estar ali fora e pegar a chuva toda. E que se dane o resto todo.

postado por: Letícia Junqueira - Lady Erinyes 3/18/2008 09:38:02 AM





{ Vida fitness }



Deu de correr. É assim agora: acorda, toma café e vai. Os joelhos, sempre podres, tendem a piorar. Ela não liga, corre.

Começou pra provar que podia. Mais uma das tantas coisas que a teimosia a levou a fazer. Queria mostrar pra ela que era capaz. Dar um passo adiante. Dar vários passos. Rápidos. Cada batida do calcanhar no asfalto era um sofrimento e um alívio. Os joelhos ardiam, a respiração ofegava. Mas continuava, porque tem gente que prefere chamar teimosia de perseverança.

E era assim que os dias começavam: com dor. Não seria diferente de alguns outros dias, quando não saía da cama. Chegava em casa destruída, encharcada e sorrindo. Superar os próprios limites faziam dela alguém que podia tudo. Como se tudo sempre dependesse só dela, o tempo todo. E, por ser teimosa, queria ser capaz de fazer tudo sozinha.

Então corria. Pra escapar do que não dependia dela. E a corrida virou uma fuga desesperada, pra não pensar nos mortos-vivos que acham que a vida dela é cemitério de filme B. No que atordoa quando ela tem que responder se está tudo bem. Está tudo bem demais, e isso assusta. Talvez fosse mais tranquilo quando a desgraça estava feita.

As árvores, as pessoas. As casas. A velhinha sentada na varanda. O cara consertando o carro. Com o tempo, decidiram se mover e correr, enquanto ela ficava parada. As coisas passavam por ela, e, embora ainda ouvisse o barulho do pé no asfalto, estava parada – era a sensação que tinha quando calçava o tênis e saía. Ia flutuar e já voltava. Mesmo que às vezes doesse. Que o joelho insistisse em se fazer notar. Que a perna falhasse uma pisada de vez em quando.

Mas ninguém te julga quando você é uma pessoa que flutua. E agora ela corre só pra sorrir depois.

postado por: Letícia Junqueira - Lady Erinyes 3/18/2008 09:36:33 AM





Sábado, Dezembro 29, 2007

{ Ano que vem... }



2007 foi um ano meio xexelento. Não que tenha sido feito só de coisas malas: não, isso não. Muita coisa boa aconteceu, mas nem tudo se manteve. E tal qual história de amor, não importa nada o roteiro todo, o que importa é o final feliz.

Talvez 2007 só precisasse de um final feliz pra ser um pouco menos mal falado. E talvez seja minha culpa. E sua. Ainda sobram uns diazinhos pra escrever um final mais merecido - e eu, que vou pra cidade maravilhosa amanhã, já tenho uma bela duma ambientação pra um fim de história. Veremos.

Por ora, fica um texto do Carpinejar. Talvez a gente devesse insistir um pouco mais em 2008.



"INSISTA...

Sempre insista. Fale mais do que seja possível pensar. Insista. Temos que ter a capacidade de superar as resistências. Toda primeira conversa enfrentará uma série de inconvenientes. Mas insista. Não recue com a gafe, com o estardalhaço, com a vergonha. Siga adiante. Comece a rir sozinha. Rir é receber a pergunta: o que você está rindo? Rir é ser perguntado. Não há motivo para rir, rir é se abraçar. Minha risada é meu gemido público. Acordar me deixa excitado.

Talvez aquela amiga não queira namorá-lo para não estragar a amizade. Portanto, diga: quero hoje estragar nossa amizade. Estragar de jeito. Arruinar nossa amizade. Corromper nossa amizade.

Estrague fundo, o amor pode estar recolhido nela. Mas não aceite tão rápido o que ela não acredita. É disfarce, vivemos disfarçados de normalzinho, de ponderado, de retraído, porque a verdade quando surge faz atitudes impensadas, como comer algodão-doce nesta terça-feira diante de uma escola de normalistas. Que saudades de acenar para uma freira dirigindo um fusca. Deus é uma freira dirigindo um fusca. Tenho saudades de me exibir cortando laranjas. As tiras simétricas, os cabelos loiros da laranjeira. Tenho saudade de passear com a minha laranjeira.

Não se explique, insista. Eu não vou ficar esperando alguém me salvar. Eu mesmo me salvo. Eu mesmo me arrumo para a loucura.

Insista. O apaixonado cria sua boca. Cria sua boca para cada boca. Caso tenha prometido ir atrás dele, vá. Telefone, ainda que atrasada dois anos da promessa. Volte atrás, não queria pensar com os olhos, a boca são olhos mais atentos.

Não se intimide ao encontrar seu homem no momento errado. É sempre o momento errado. Seja o momento errado da vida dele. Mas seja parte da vida dele.

Seja o erro mais contundente da vida dele. Seja a vida do seu erro, para ele errar mais seguido.

Talvez aquele amigo não converse para manter a aparência de misterioso. Talvez ele nem saiba conversar, seja incompetente. Insista. Uma hora ele vai tomar um porre do seu silêncio, sentar no meio-fio e falar aramaico. Todo homem guardado uma hora fala aramaico. Insista, esteja perto para o sermão dos pássaros no viaduto.

A vida mete medo quando ela não é formalidade, não temos como nos defender do que parte dos dentes. Tenha um medo assombroso da vida, que é mais justo, deixe a morte com ciúme e inveja, deixe a morte sem dançar.

Não fique articulando frases inteligentes, comoventes, certas. Insista. Sei o valor de uma fantasia, mas insista. Tropeçar ainda é andar, pedir desculpa ainda é avançar, concentre-se na dispersão.

Ninguém quer falar com ninguém. Mas insista. Na sala do dentista, no trem, no ônibus, no elevador. Insista. O que mais precisamos é estranheza para reencontrar a intimidade. Não há nada íntimo que não tenha sido estranho um dia. Seja estranho com o ascensorista, com o porteiro do prédio, com a colega. Declare-se apaixonado antecipadamente. Depois encontre um jeito de pagar. Ame por empréstimo. Ame devendo. Ame falindo.

Mas não crie arrependimentos por aquilo que não foi feito. Sejamos mais reais em nossas dores.

Tudo o que não aconteceu é perfeito. Dê chance para a imperfeição. Insista.

Estou cansado de me defender - sou só ataque. Insisto."

(Fabrício Carpinejar)


E feliz ano novo!


postado por: Letícia Junqueira - Lady Erinyes 12/29/2007 10:43:43 AM





Terça-feira, Novembro 13, 2007

{ Eu não posso fazer tudo sozinha }



Eu cansei de ser sempre a moça forte que pode tudo. As bolhas nos meus pés doem de ir atrás das coisas que eu quero. Sempre. Toda vez. Eu não sou essa muralha. Eu mal sou uma muretinha.

A gente discutia a incondicionalidade do amor. Eu não quero nada, só quero que você me ame mais do que acha que consegue. Um amor que não sabe que horas são, se eu sou mais esperta ou se vai chover. Um amor assim, daqueles que chegam e invadem tudo. Daqueles que não querem saber se você é completamente diferente de mim. Que não ligam se a gente é exatamente igual.

Eu quero que você bata no cara que me cantou no bar, que a razão saia pianinho pela porta da frente, que você alugue a casinha... e ame. Ame! Sem saber se tem amor de volta, se vai dar casamento, se vai ter que tomar muita cachaça pra esquecer ou se nós vamos ter nossos Sofia, Lara, Vinicius e João.

Eu quero alguém que me ame mais do que pense.

_


Não sei como fiquei tanto tempo longe daqui. Essa é a minha casa. Me esconder embaixo da cama não significa que eu não more aqui, certo?
Mais desabafo que qualquer outra coisa. Pelo menos não me tomam a casa (né, Cheshire? ;D). Volto logo. Mesmo mesmo mesmo, de verdade. Só não prometo textos melhores, hahahahahaha!


saudades!


postado por: Letícia Junqueira - Lady Erinyes 11/13/2007 06:26:20 PM





Segunda-feira, Junho 04, 2007

{ Birra }



Eu ainda sei escrever. Só não sei se eu quero.


humpf.

postado por: Letícia Junqueira - Lady Erinyes 6/4/2007 04:07:38 PM





Segunda-feira, Abril 02, 2007

{ As histórias }



Deu de começar os textos com verbos. Porque, afinal, é assim que começam todas as histórias, não é? Começando. Nem sempre importa quem faz o que. Nem onde. Nem com quem. Às vezes, só importa que seja feito.

Como grandes histórias de amor. Eu e você, eu e aquele outro, você e aquela uma. São só grandes tramas românticas - às vezes, nem isso. E importa?

Os verbos indicam muito mais que uma ação. Indicam coragem em fazê-la. Se bem que dizem que a coragem é uma forma de burrice. Que seja. Não faz mais diferença quem fez o que. O fundamental é que foi feito, e é por isso que estamos aqui agora. Nesse ponto da história, e não lá naquele outro, cheio de vírgulas e poréns. E novos parágrafos que sempre acabavam contando a história do parágrafo anterior.

E eu não quero saber se as letras que se escrevem saem de mim ou desse pequeno demônio que mora aqui dentro. Deixe que grite e que não faça sentido. Como eu não faço. Nem você. E não interessa quem, desde que as atitudes sejam tomadas. E novas histórias sejam contadas.

Que venham, cheias de verbos.


Contando...

postado por: Letícia Junqueira - Lady Erinyes 4/2/2007 10:24:46 AM





Terça-feira, Janeiro 30, 2007

{ O trabalho que enobrece o homem - será? }



"E aí, no ano 2000, haverá máquinas que farão tudo por nós. E trabalharemos quatro horas por dia, e teremos férias de três meses." Pelo menos, era assim que pensavam meu pai e os amigos da faculdade, lá na década de 70. Acho que alguma coisa deu errado.

A jornada de trabalho continua a mesma desde então. E, arrisco dizer, com um volume de trabalho muito maior. Um trabalho que tomava uma semana pode ser feito, hoje, em um dia - e, no resto do tempo, ao contrário do que acreditavam meu pai e os colegas, não existe descanso. Existe mais trabalho.

"Ninguém está aqui trabalhando por hobby, está?". Não. Ao se tornar passatempo, o trabalho vira diversão. E, definitivamente, isso não tem nada a ver com sair de casa de manhã e voltar ao fim do dia, reclamando da vida. Lembro de uma reportagem que tentava ensinar aos pais como transmitir aos filhos a sensação de que trabalhar é bom. Como se isso fosse possível.

Encontro a definição - não sei se a mais correta, mas, pelo menos, a mais sincera - para "trabalho", feita pelo Grupo Comunista Internacionalista, da Bélgica: "o trabalho é a negação da vida, da alegria e do prazer humano. O trabalho faz do homem um estranho para si mesmo, alienado da humanidade como um todo." Pegar no pesado sempre foi coisa de escravo mesmo, até que apareceu alguém com essa conversinha de que "o trabalho enobrece o homem" e incutiu no ser humano a sensação de culpa por não estar fazendo nada. Ou pior que isso: de estar fazendo alguma coisa que dê prazer.

Tive um emprego, certo tempo atrás, em que eu sorria e dizia "vou pro trabalho". Não, aquilo definitivamente não podia ser um serviço sério (e era). Mas fui educada para saber que o mundo está cheio de gente lutando, estudando, trabalhando, e que eu tenho que ser melhor que eles. Passo várias horas por dia trancada num escritório, fazendo uma segunda faculdade e ainda vou apostar num mestrado, só para continuar brigando - uma briga que nem sequer fui em quem comprei. Várias vezes eu me pergunto se isso tudo vale a pena. Se não era melhor aproveitar esse tempo para viver de verdade.

"Mas vai ser bom pra você, profissionalmente, esse tempo que você está gastando agora". E o que eu faço com esse eu não-profissional, que tem vontade de tomar sol deitada na grama e ficar vendo o tempo passar com cabeça tranquila, sem se preocupar se eu devia estar aproveitando esse tempo fazendo algo realmente útil? Afogo no baldinho?

Alguma coisa ainda há de restar disso tudo. Espero não ser o arrependimento.


lerê, lerê...

postado por: Letícia Junqueira - Lady Erinyes 1/30/2007 11:04:30 AM





Domingo, Janeiro 21, 2007

{ Sing a song }



Tem coisas que só Ray Charles pode fazer. Como me botar pra escrever esse tipo de coisa.


é, tudo o que não podia acontecer está acontecendo
(de novo)

eu continuo com vontade de dizer que queria você aqui comigo
mas, ah,
só o que eu consigo dizer é um monte de frases bobas sem sentido
não devia ser tão difícil, eu aqui e você aqui comigo
e a vontade de largar tudo e ir te encontrar de pijamas às três da manhã

porque, de repente, você podia dizer que gosta
de eu aparecer às três, de ficar comigo, de mim
e me abrace e diga que teve medo

quem sabe aí eu não acorde nunca
e ray charles nunca pare de cantar




aproveitem que vocês têm o ano todo pra esquecer isso.


lalalá...


postado por: Letícia Junqueira - Lady Erinyes 1/21/2007 01:37:54 PM





Quinta-feira, Novembro 16, 2006

{ Férias, pelamordeDeus }



texto publicado originalmente no jornal hora h, em 17/11

Ela não sabe. Só isso. Às vezes fica parada, olhando a parede, o relógio vermelho teimando dizer que o tempo insiste em passar. Quer fugir, mas não sabe pra onde. Quer casar, mas não sabe com quem. Quer ficar rica, mas não sabe como. Quer comer, mas não sabe o quê. Então fica ali parada, fitando a parede. Até à noite.

Novembro é o pior mês do ano: aquele em que está perto das férias, mas ainda falta muito. Em que se planejam as viagens de fim de ano, mas não se sai do lugar. Em que se quer mandar tudo pro espaço e sair pelado gritando na rua. Mas não seria aconselhado, ela acha.

Podia gastar esse tempo lendo, mas é incapaz de se concentrar. Lê uma linha, pula duas, come três palavras... além disso, dúvida em decidir qual livro ler. Há tanta coisa para ser feita - mas o quê, exatamente, ela não lembra.

Toma banho porque deve ser tomado, dorme porque já é noite, vai trabalhar porque já é dia. Vida besta mesmo. Que vai vivendo só porque também não decidiu se vale a pena continuar vivendo ou não.

Pensa em salvar o mundo, mas lembra que não conseguiu pagar o telefone do mês passado. Ai ai. Que duro é não saber. Na verdade, ela se pergunta se já não conhece as respostas, só tem preguiça de parar de olhar para a parede. Vai saber.

Trabalha, estuda, trabalha, estuda, trabalha, liga a tv, vê a novela. Agora tem mais canais pra assistir, mas às vezes não sabe o que escolher entre tantas opções e acaba vendo o de sempre. Êta vida besta.

Faz mais de ano que ela escreve pra um jornal, mas não sabe de verdade se tem mais do que três leitores. Às vezes pensa em desistir de tudo e vender bijuteria na praia. Outras vezes, decide vender o carro e dar entrada num apartamento, tornando-se uma investidora do ramo imobiliário. Ela não sabe o que quer, definitivamente.

Para não matar os leitores de tédio, para não enlouquecer totalmente e para garantir um fim de ano relativamente saudável, ela vai tirar férias. Quem sabe, assim, ela conheça um milionário pra casar, fique rica e fuja para a Indonésia, onde comerá pratos exóticos. E aí patrocine projetos para acabar com a fome no mundo e decida ver a telejornais em que ela apareça dando entrevistas sobre seu trabalho como salvadora do mundo.

Mas se nada disso acontecer e se as pessoas desse jornal permitirem, dia 22 de dezembro ela está de volta para desejar um feliz Natal. Por hora, ela vai lá ter mais tempo para olhar a parede.

***

A quem interessar possa, esta que vos escreve continua (ou vai tentar, pelo menos) a escrever no blog www.cha-tice.blogger.com.br. Na pior das hipóteses, dá pra reler uns textos e descobrir uns não-publicados. Até daqui a um mês!

não dá pra dizer que eu não avisei!

postado por: Letícia Junqueira - Lady Erinyes 11/16/2006 11:11:32 PM





Quinta-feira, Outubro 26, 2006

{ É proibido beijar no salão }



- Desculpe, senhor, mas isso não é permitido.
- Ahm? Como assim?
- É proibido beijar no salão.

Isso aconteceu num café, em Curitiba. É, num café, não numa igreja, nem numa escola infantil. Um lugar de gente que toma essa bebida cheia de cafeína, por vezes com álcool. Um ambiente onde, reza a lenda, reúnem-se pessoas inteligentes e intelectualizadas.

Mas é proibido beijar no salão.

Porque, vai ver, os freqüentadores de cafés são ranzinzas o bastante para se incomodarem com casais felizes que se beijam. Como se eu fosse uma fumante, invadindo narinas alheias com fumaças de amor e felicidade.

(Em tempo: eu não fumo e não sou lá muito fã de cigarro, mas acho uma maldade proibirem as pessoas de fumar num lugar "aberto" como um shopping.)

Alguém pode dizer que um café não é um lugar para fumar, nem para se beijar, é um lugar para beber e comer e conversar. E onde é lugar de beijar? A cama é feita para dormir, o mercado é para fazer compras, o parque é para fazer exercícios, a escada e o elevador são só para chegar ao próximo andar. Se o banheiro é para fazer pipi, o colégio e a universidade são só para estudar, onde diabos eu beijo o meu moço?

Aliás, sugiro placas informativas nos estabelecimentos, com uma boquinha coberta por uma listra: é proibido beijar neste local. E a criação de beijódromos, porque, afinal de contas, em algum lugar as pessoas normais têm que se beijar, não tem?

Bom, acho que não, porque é proibido beijar no salão. E na Universidade, visto que recebi o mesmo aviso no pátio da primeira universidade tecnológica do país. Não pode namorar na escola. É, engenheiro tem que ser frio e calculista, nada desse negócio de ficar se beijando no intervalo (imagino o que aconteceria no caso de um beijo homossexual como o que aconteceu na USP, tempos atrás).

Já esperando os comentários alheios de que eu deva realmente ser muito escandalosa nos beijos, aviso que não. Não falo de um beijo homossexual que possa chocar a multidão mais conservadora. Nem de um daqueles beijos escandalosos dados entre duas pessoas sozinhas numa mesa, que acabam na frase "vamos pra um lugar mais reservado".

Eram cinco pessoas na mesa. O beijo durou alguma coisa como 30 segundos. As quatro mãos envolvidas estavam visíveis, na linha dos ombros. E, ao fim, recebemos o aviso. Ficamos tão surpresos que acatamos.

E então eu recebo o vídeo do "Free Hugs" e do carinha que saiu na Paulista com uma placa "dá um abraço?". Talvez seja isso que as pessoas em Curitiba precisem. Abraços. Carinhos. Calor humano.

E permitir beijos em cafés e universidades.

tudo o que você precisa é amor...

postado por: Letícia Junqueira - Lady Erinyes 10/26/2006 02:19:01 PM





Quinta-feira, Outubro 19, 2006

{ Blindagem (e não é a Banda) }



- Uma taça desse bordeaux mais barato e um croissant, por favor.

Ficou sentada à mesa posta na calçada em que ela tanto tropeçava. Coque feito no topo da cabeça, cachecol descendo pelo ombro, quase tocando o chão. Acendeu o cigarro e deu uma tragada profunda, como se absorvesse toda a quietude da manhã sem cor. Para soltar a fumaça em seguida, liberando também um pouco da sua própria coloração cinza.

Era uma mulher blasé. Que não conseguia entender os grupos de adolescentes que passavam lá além, sorrindo e fazendo balbúrdia, mas longe o bastante para não serem ouvidos. Optava por não ver os casais apaixonados que cruzavam sua frente, simplesmente como se não existissem. Olhava através das coisas e das pessoas, com uma cara de desdém que nunca se desfazia.

O garçom deixou a refeição sobre a mesa. Se é que aquilo podia ser chamado de refeição. Passou a engolir o que estava à sua frente, sem prazer e sem fome. Pessoas blasé não precisam de alegria nesse tipo de atividade corriqueira, assim como não precisam para mais nada na vida. Ela não se lembrava da última vez em que dividiu a cama com um homem - não que fizesse muito tempo, mas simplesmente porque não merecia ser lembrado.

Seguiu mastigando a massa folhada do croissant de pastrami, sem se recordar que era seu sanduíche preferido - porque foi o que comeu na primeira vez em que foi ao cinema com seu pai. Continuou tomando vinho, esquecendo que um bordeaux, embora mais vagabundo, tinha sido a bebida daquele encontro. Aquele, que seria o melhor da sua vida se ela realmente se emocionasse com alguma coisa. Ela não lembra de como tudo começou. Não porque estivesse bêbada demais (ela nunca fazia nada demais), nem porque tivesse passado por uma lobotomia. Era só uma mulher blasé.

Uma Catherine Denéuve, deslizando pela rua com seus óculos escuros gigantescos e o cachecol balançando com o vento. Uma pessoa com controle total e absoluto de seus sentimentos, até porque não os tinha.

Caminhou pela rua sem prestar atenção a nada, sem se ater ao pequeno cachorro que quase lambeu sua bota ou ao guardador de carros que lhe ofereceu uma florzinha caída de uma árvore. Entrou em casa sem se importar com o vizinho que a espiava pela fresta da porta, sem se perguntar de quem seria aquele envelope vermelho na sua caixa de correio.

Deixou as chaves e a correspondência sobre a mesa e foi ao banheiro. Abriu a porta do armário atrás do espelho. Ufa. Ainda estava lá.

Num pote de vidro com formol, seu coração. Bem guardado, para o momento em que se permitisse, pela primeira vez, perder o controle. E viver de verdade.

(suspiro)


postado por: Letícia Junqueira - Lady Erinyes 10/19/2006 03:56:31 PM





Terça-feira, Outubro 03, 2006

{ Sobre a mentira: cena única, ponto final }



Introdução:

Clipe de guerra medieval. Cavalos, armaduras. Muito pó. Um rio (sempre tem um rio nas minhas brigas). Não há sangue! Exclamação, exclamação, exclamação.

Corta.

Um bar, uma mesa de sinuca. Quatro bolas na mesa, o taco derrubando uma delas caçapa abaixo. O jogo continua. Reticências. Três delas, como os três pontos que a compõem.

Corta.

Parte 1:

Um lugar qualquer, um dia qualquer. Mundo real, cena 1.

Vamos fazer um acordo. Eu finjo e você faz que acredita. Assim mantemos essa convivência pacífica que faz de nós cidadãos normais e amigos.

Não é mais como antes. Isso não. A magia se desfez depois de algum truque malfeito em que percebi a verdade - não era mágica, era só um disfarce. Ilusionismo, era assim que os profissionais chamavam. Mas eu finjo que acredito e você finge que não percebeu.

Porque eu não sei se é pior mentir dizendo que eu te amo ou que eu te odeio: e as duas são grandes mentiras. Ainda faz alguma diferença você estar ao meu lado, mas eu ainda não entendi exatamente qual é.

Mas finjamos que nada aconteceu, nunca. E que os dias sempre foram felizes - mas não tão felizes quanto aquelas horas. Vamos enterrar tudo como se nada tivesse acontecido, está bem pra você?

Ponto de interrogação, mas, na verdade, tudo o que ela queria era um ponto final.

Parte 2:

Um lugar qualquer, um dia qualquer. Mundo real, cena 2.

Não, para mim não. O que você não entende é que eu nunca te enganei. Não, deixa eu terminar. Eu nunca prometi nada disso que você esperou. Você se iludiu por sua conta. Você inventou a magia, as cartolas e os coelhinhos. Eu nunca disse que ficaria com você, disse? Desde o princípio. É só a química, sabe como? Eu não consigo me controlar perto de você - mas nunca seremos namorados.

Só não ache que é só sexo. Não é. Eu gosto de você...

Três pontinhos - que ele adora e ela não agüenta mais. Nunca mais.

Parte final e pedido encarecido:

Vários dias, várias vezes. Mundo à parte. Cena final.

E é assim que se termina um relacionamento sem terminar. Eu não gosto de reticências, apesar, apesar de ter deixado algumas poucas durante a vida. Sempre preferi os pontos finais, muito mais incisivos. Mais diretos. Se você quiser, depois a gente volta a construir uma frase. Nova. Ou um texto todo. Mas começando em um novo parágrafo.

Agora? Ainda há muitos atos e capítulos e páginas e histórias e letras a serem escritas. E você morreu, pelo menos por enquanto. Permito uma breve reaparição após o capítulo 14 - só pra eu poder te matar de uma vez.

Por enquanto, por favor: permaneça morto. A história agradece.


Não aceitamos vaias, obrigada! :)

postado por: Letícia Junqueira - Lady Erinyes 10/3/2006 06:01:41 PM





Terça-feira, Setembro 12, 2006

{ Visitas noturnas me tiram o sono! }



"O descanso é coisa boa ....para os mortos." - Thomas Carlyle


Clic. Liguei o abajur. Já passa das três da manhã e - muda, vira, rola - o sono insiste em espiar da sacada. Está lá, fazendo micagens enquanto grito pra parar de palhaçada e entrar logo. Não adianta.

A gata, ao meu lado, dorme tranquilamente. Observo a barriga subir e descer, acompanhando o ritmo da respiração. Eu nem respirava mais. Só sabia que o ar entrava em meus pulmões porque continuava viva.

Droga. Quebro mais uma unha. Impressionante a falta de capacidade em conseguir pegar no sono. A cadeira de balanço, ao lado da cama, se movimenta sozinha. Mais um dos fantasmas que insistem em fazer visitas. Eles morrem e resolvem tomar chá de madrugada no meu quarto. Pelo menos esse estava quieto - não gosto das grandes festas que eles promovem sobre a minha cama.

(Lá no céu, São Pedro precisa vigiar melhor seus hóspedes. Ou no inferno, sei lá. Achei que havia um controle de entrada e saída de habitantes. Puá. Não existe burocracia no pós-vida - ou pós-morte, sei lá.)

O sono resolve bater um papo com o nada que ocupa a cadeira de balanço. Eu mereço. Será que dá pra vocês calarem a boca que eu estou tentando dormir?

Clic. Desligo o abajur. O blablablá ao lado continua. Malditos. Quando eu me for desse mundo, terei uma conversa muito séria com o responsável das almas no além.

Silêncio, ufa. Finalmente ficaram quietos. Agora só falta o sono se chegar. Fecho os olhos, respiro fundo...

Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Tudo incomoda. Até a cadeira de balanço, agora vazia e parada. Os mortos insistem em reviver e voltar ao lugar de onde vieram. Talvez porque nunca pertencerão realmente ao meu quarto.

A gata continua dormindo. Os passarinhos começam a cantar lá fora. A cadeira de balanço se mexe, uma última vez. Ele sempre se vai quando o dia amanhece.

Triiiiiiiiiiim. É hora de acordar e voltar ao mundo em que as pessoas existem de verdade. Pessoas que aparecerão durante o dia e irão embora antes do amanhecer. Por favor, tragam seu próprio chá. E falem baixo, por favor. Estou tentando dormir.

***

Teoria sem sentido do dia: não que o vizinho de cima tenha o hábito, mas vocês já tentaram ouvir música escocesa? Gaitas e mais gaitas de fole, um sonzinho insuportável de se ouvir por mais de dois minutos seguidos. Minha vizinha de mesa no trabalho escuta. Deve ser por isso que o uísque dos escoceses é o melhor...


Saiam! Saiam!

postado por: Letícia Junqueira - Lady Erinyes 9/12/2006 03:03:21 PM





Terça-feira, Setembro 05, 2006

{ Run, Forrest... run! }



Cuba. Portugal. Chile. Pra onde você iria, agora, se pudesse?

Parecia um bom dia para viajar. Gostava de dias assim, em que acordava e pensava que podia estar na estrada. Então, entrava no carro e dirigia. Nem sempre tinha rumo. Nem sempre queria chegar a algum lugar.

Queria conhecer Cuba. Desde que começou a ler Pedro Juan Gutierrez e descobriu um mundo diferente do que ela conhece. Se pudesse, não acabaria essa frase e iria pra lá. Mas não pode, há coisas a fazer aqui - coisas que ela inventou, é verdade. Mas não pode ir a tão longe agora. Daqui a um tempo sim.

África do Sul. Dinamarca. Tailândia. Aquela água cor de bolinha de gude, que nunca imaginou sair daquela esfera de vidro. Um sem fim de mar, todo colorido, todo transparente. Vai entender.

Nem sempre ela sabia pra onde ir, na verdade. Não só quando escolhia um destino ou uma rodovia para dirigir. Ligou o carro. Olhou o cabelo penteado refletido no espelho retrovisor. É bom curtir o caminho. Mesmo que não se saiba aonde chegar.

Aumentou o volume do rádio. A liberdade de ir a qualquer canto do mundo, desde que quisesse (e roubasse um banco). Odiava quando completava as frases de maneira a trazê-la de volta ao mundo real. Gostava mesmo era de pensar que podia fazer o que quisesse, inclusive mudar o mundo. E pessoas.

Não é preciso motivo pra fazer alguma coisa, mas ela queria conhecer uma guerra de perto. Haiti. Líbano. As pessoas se transformam em tempos difíceis. Queria conhecer um pouco da dor, aprender com quem sofre tanto. Ajudar a contar uma história. Fazer parte de uma.

França. Inglaterra. Itália. Ver de perto se é verdade que Paris é uma "merde", como chegaram a dizer. Aquele tempo todo de história logo ali, ao ar livre. Tanta gente diferente, tomando sol de biquíni no parque - tomando sol sem biquíni no parque.

Dirigiu durante toda a tarde. Até o sol cair e ela pensar que, lá no Japão, o amigo devia estar acordando para trabalhar. Assim como a moça que lê os textos dela e que ela não conhece, mas que tem um sobrinho muito fofo.

Afeganistão. Namíbia. Austrália. Qualquer lugar bem distante daqui. Dirigindo, foi o mais longe que o tempo permitiu. Foi - e voltou. Porque estava presa aqui (e era por isso que queria tanto fugir).

Queria ir pra muito longe, pra esquecer o que está muito perto.


***

E só pra eu não me esquecer de porque eu gosto tanto de Los Hermanos: "mas não me peça para amar outra mulher que não você...".

(às vezes, a gente ama tanto que dói).


Ou, em outras palavras: fuja, louco!

postado por: Letícia Junqueira - Lady Erinyes 9/5/2006 03:02:16 PM





Terça-feira, Agosto 15, 2006

Correspondência alheia




Oi oi! Tudo bem contigo, tio?

Aqui tudo em ordem. Deve estar quase tão quente quanto aí. Mentira. Tem gente morrendo de calor aí na Europa - mas o povo morre por muito menos aí (gente chique, não pode ficar suando). Em compensação, a lua cheia daqui está de tirar o fôlego. Afe! Dá até vontade de parar no meio da rua e começar a uivar. Perdeu, perdeu. O Flávio até fez umas fotos dia desses, acho, mas eu não vi como ficaram.

Finalmente fui para o sétimo período do Cefet. O último de aulas. Parecia que não ia chegar nunca, credo. Contei minha idéia do trabalho de conclusão de curso pra professora de História do Design, que comprou fácil a idéia. Disse que, muito provavelmente, vou me ferrar fazendo. Tudo bem, sempre curti mais as coisas que parecem impossíveis. Veremos se começo com e-mails tímidos pra uma universidade lá em Havana - e espero que El Comandante resista até que eu vá pra lá...

Como está Paris? Torre Eiffel, croissant, cafés... já vi tudo. Bidê, maître, abajour, soutien, mon amour, ballet, tricot! Ah, não vou gastar todo meu francês com você. Mas estou aprendendo a fazer tricô, parece bom pra não pensar em coisas que não dá pra parar de pensar. O problema é que de vez em quando você esquece de não pensar e perde um monte de pontos, tem que desfazer tudo. Droga. Mas não desisto dos meus talentos domésticos, especialmente agora que aprendi a fazer arroz branco direito.

Tá, esse e-mail não faz sentido. Eu também não faço. É que já cantam os moços do Los Hermanos, "não te dizer o que eu penso já é pensar em dizer". Que seja. Não ia dizer mesmo, mas pensei.

E só pra não dizer que eu não disse nada do que eu pensei: saudade de você.


***


Estou aprendendo a fazer tricô. Eu sei lá porque diabos. Talvez eu queira tricotar sapatinhos de lã pros filhos que eu não tenho. Só espero não acabar fazendo roupinhas pra cachorros.

Eu nem queria pensar nesse assunto. Mas, nos últimos dias, várias pessoas que eu adoro me falaram sobre o medo de ficarem sozinhas. Sobre a possibilidade de simplesmente não terem alma gêmea perdida no mundo. Ou, como disse uma amiga, "o homem da minha vida existe, só que está na Groenlândia. Estou esperando que ele derreta". O meu deve estar junto - e é por isso que somos a favor do aquecimento global.

Tá, falando sério. Eu estou aprendendo a fazer tricô. E não vou me casar com o primeiro moço que eu possa apresentar à minha mãe, só pra provar que eu sou capaz de arranjar alguém. E que se dane o que as pessoas achem de mim.

Eu faço tricô, e isso me basta agora.


E em breve terei um cachecol pra usar ano que vem!

postado por: Letícia Junqueira - Lady Erinyes 8/15/2006 04:04:50 PM





Terça-feira, Agosto 08, 2006

{ Apresentando: o Manual
de Invisibilidade de Problemas }



Ai ai. Férias. A vida é muito melhor quando se pode acordar às 9h30 da manhã, tomar banho com calma e fazer "aquele" café da manhã. É maravilhoso deliciar-me com torradas e suco de maracujá enquanto assisto a desenhos na televisão ou vejo as crianças do vizinho brigando, sob a tentativa exasperada da mãe em impedir um fratricídio, enquanto penso "benditos sejam o anticoncepcional e a camisinha".

Então, sorrindo, eu me levanto, vou até a cozinha pegar um pouco de café e vejo que da torneira da pia, curiosamente, escorre um filete meio amarronzado. Uma análise mais profunda e eu percebo que, sim, tem um vazamento na minha cozinha.

Tudo bem, nada acabará com aquela bela semana de férias. Nem o marceneiro que ficou de vir arrumar o móvel e ainda não deu as caras. Não, porque temos bolachinhas amanteigadas e sol brilhando lá fora.

Sim, sim. Férias. Esse período maravilhoso que... argh. O gato acaba de vomitar no meio da sala porque, afinal de contas, eu estou de férias e não escovo os pêlos do bichano há dois dias. Com o pano de chão em mãos para limpar a bagunça, ajoelhada, começa a tocar a música que lembra aquele cara que eu quero esquecer.

Eu começo a amaldiçoar esse maldito tempo livre que tenho pela manhã.

Mas nem tudo está perdido. Na tentativa de recuperar uma semana de férias relativamente decente, proponho o Manual de Invisibilidade de Problemas: como fingir que nada atrapalha sua vida em cinco passos práticos.

1- Se você não vê, é porque o problema não existe.
Esconda as contas em uma gaveta que você nunca abre. Não olhe o extrato do banco. Não leia revistas com conteúdo realmente informativo, nem assista a telejornais. Seja um alienado de todos os problemas do mundo. Se puder, nem leia seus e-mails, porque muitos deles são problemas via internet.

2- Evite pessoas que são problemas.
Não se encontre com elas. Não atenda seus telefonemas. Apague-as do msn. Ok, esse tópico poderia estar incluso no item 1 deste manual, mas aí eu nunca conseguiria completar 5 passos para fechar esse guia.

3- Se o problema te persegue, esconda-se.
Alguns problemas, mesmo escondidos em gavetas, gritam. Sugestão: leia um livro ou veja um programa idiota de tv. As duas coisas mantêm a mente ocupada em alguma coisa que realmente não são os seus problemas - na pior das hipóteses, são problemas dos outros.

4- Você fez tudo certinho, mas o problema saltou exatamente à sua frente.
Abstraia. Você não viu nada, isso é tudo coisa da sua cabeça. Sugestão: se não conseguir esquecer o que viu, ouça música barulhenta a um volume altíssimo - o suficiente para que você não consiga concatenar as idéias. Se morar em prédio, sugiro que use fones de ouvido. Você pode fingir não ter problemas, mas não precisa arranjar novas encrencas.

5- Você não tem problemas.
Lembre-se disso.


E ai de quem disser o contrário!

postado por: Letícia Junqueira - Lady Erinyes 8/8/2006 02:30:34 PM





Terça-feira, Agosto 01, 2006

{ Fugindo da chuva }




Corre, corre, corre. Sai correndo pela cidade cinza que insiste em lembrar tanta coisa. Era uma noite como essa, só que mais quente. Tão cinza quanto. Tão vazia quanto.

"Você acha que dá pra esquecer tudo? Como se nada disso tivesse acontecido um dia?" Ela se manteve calada. Preferia acreditar que eram sonhos e pesadelos, revezando-se noite após noite na cama quente. E que uma hora acordaria, pronta pra descobrir que isso definitivamente nunca existiu.

Mas agora, corre, corre, corre. Debaixo de chuva. A luz do semáforo ilumina os pingos de chuva. Luz vermelha, para lembrá-la que é preciso parar. Mas ela não pára. Corre o mais rápido que pode, antes que a chuva a alcance. A música toca na cabeça, o tempo todo, num looping infinito. A música que ela ouviu naquela noite, tão cinza e vazia quanto essa - só que mais quente.

Foge, antes que as memórias a alcancem. Não quer ser inundada por essas lembranças que, como a chuva, correm atrás dela.

"A questão, minha cara, é que razão e sentimento são opostos. Isso você sabe, e todos os teóricos concordam. Você pode até decidir o que fazer. Mas não há como fugir do que aconteceu." Não há. Ótimo. Então o esforço todo é à toa?

Continua a correr. Escuta, agora, o apito do trem. Vem em direção a ela, de maneira que ela não pode impedir. O som se mistura à música que não toca em nenhum lugar, a não ser dentro da cabeça dela.

Ofegante, o coração saindo pela boca. Encontra pelo caminho um realejo. Um palhaço, um malabarista. Que diabo é isso no meio do caminho, em plena noite cinza? Corram, a chuva vai pegar vocês também. Não estão vendo?

Corre, corre, corre. Quer chegar em casa, se enrolar na manta e tomar um café quente, como se nada disso nunca tivesse acontecido. Antes que a chuva chegue. Antes que as lembranças a peguem de jeito e a arrastem como numa correnteza para um lugar onde não há como se apoiar.

A luz amarela em sua direção. A chuva logo atrás. O semáforo vermelho pisca, alternado, indicando que vem trem por aí. O apito ensurdece, a chuva logo atrás. Corre, corre, corre. Não pode parar, ou a chuva a alcança. Um pé no trilho, a luz do trem na cara.

É preciso parar, antes que o trem passe por cima. Ela arrisca e aumenta o passo. Antes que consiga alcançar o outro lado do trilho, o palhaço a puxa e ela fica. A um palmo do trem. A chuva a alcança e ela ouve um estrondo.

As lembranças. Atropeladas, moídas no trilho. Ela senta, ao lado da ferrovia. O palhaço, aquele que é o mais triste dos seres, sorri pra ela - que, tão triste quanto, retribui.


chuááááá...

postado por: Letícia Junqueira - Lady Erinyes 8/1/2006 11:36:07 AM





Terça-feira, Julho 25, 2006

{ ... }



Era engraçado. Ela se pegava parada, olhando pra tela do computador, esperando fazer a vida fazer sentido. Esperando o texto se escrever sozinho. Esperando as coisas simplesmente se resolverem.

Não era do feitio dela. Era forte, todo mundo dizia isso. Mas às vezes cansa. Especialmente quando tudo parece bem, ela acorda de bom humor e ri e conversa, mas alguma coisa ainda incomoda.

Uma coisa na qual ela prometeu dar fim. E que insiste em gritar que ainda está ali. Droga. Pior que sujeira em copo de bar. Bares que, aliás, ela se prometeu voltar a freqüentar pra não virar essa tia velha e saudável.

Ugh.

suspiro...

postado por: Letícia Junqueira - Lady Erinyes 7/25/2006 02:15:11 PM





{ Sobre mudanças e aprendizados }



Sempre achou que sua estação preferida fosse o inverno. Até se mudar para uma cidade onde, diziam, era inverno sempre. Dias frios e cinzas. Pessoas cinzas e frias.

Pensou que sua cor preferida era o preto, até que um dia começou a usar verde. E azul. E agora gosta muito do rosa. E pintou as paredes do apartamento de cores bizarras, como verde limão. Seu estilo de música preferido era a MPB das antigas, bossa nova, aquela galera legal como Baden Powell, Carlos Lyra, Vinicius de Moraes e Tom Jobim. Hoje, apesar de continuar gostando dos caras, descobriu que curte mesmo é indie rock. Mesmo que cometa deslizes e se pegue ouvindo muita música ruim, de vários estilos, só porque a faz sorrir.

Aprendeu que sabe fazer uma mudança de tom na música do Los Hermanos que deixa o companheiro de trabalho dela com inveja, mesmo que não seja lá muito afinada. Mas já perdeu a vergonha de sair cantarolando no meio da rua, mesmo que a chamem de maluca.

Pensou que as pessoas cinzas e frias da cidade onde morava eram todas assim - cinzas e frias. E descobriu gente vermelha, colorida, quente e pulsante. E se apaixonou por várias delas. E até por uma delas, várias vezes - mesmo que ele, como ela, também não fizesse parte da fauna natural da cidade.

Iludiu-se achando que era capaz de esquecê-lo só porque ele foi parar muito longe. Mas não, ele continua lá, ocupando aquele espaço dentro dela. Aprendeu a dar valor às intuições e descobriu que se ferrar faz parte do processo de estar viva.

Durante toda a vida, sempre procurou paz e sossego - e, quando encontrou, morreu de tédio. Mas limitou o tamanho das encrencas em que entra hoje, porque ainda existe aquela encrenca-mor que ocupa uma boa parte da vida dela. Mesmo que tenha aprendido a fingir que não.

Caiu a ficha de que nasceu pra ser livre e se prometeu não fazer mais o que vai contra seus princípios, só pra satisfazer alguém. Aliás, provou a si mesma que tem princípios, quando disseram a ela o contrário. Teve a certeza de que a alegria das coisas existe nas menores coisas, mesmo que seja a comicidade das situações em que se mete. Porque, quando a vida é como um seriado enlatado americano, é fundamental aprender a rir - mesmo quando se acorda com o olho inchado, igual a uma bola de tênis.

Não tem mais vergonha das coisas que faz, mesmo que não sejam tão boas quanto gostaria. E se orgulha do que faz bem-feito. Só continua sem responder aos e-mails atrasados (viu, Reynaldo?), mas jura que vai dar um jeito nisso logo.

E, mais que isso tudo, aprendeu que nada disso realmente importa. Porque, amanhã, tudo vai estar diferente mesmo...


(talvez por isso ainda espere que as pessoas mudem...)

postado por: Letícia Junqueira - Lady Erinyes 7/25/2006 02:08:32 PM





Segunda-feira, Julho 10, 2006

{ Insônia }



Vontade louca de tomar um café e fumar um cigarro. E eu nem fumo. Às vezes a vida obriga a gente a querer um café e um cigarro. E dias mais felizes.

Não conseguia dormir, coisa demais pra uma cabeça só. Dinheiro-contas-trabalho-trabalhos-faculdade-e-mais-trabalhos, além daquelas coisas que insistem em dar errado desde o dia em que eu descobri que tudo que eu achava certo, na verdade, estava errado.

E mais do que era capaz de agüentar, recados cretinos no Orkut, e-mails bizarros na caixa de entrada. Gente morta mandando mensagens do além, querendo me provar que isso é possível. Como se fosse possível, também, essa história de amor dar certo. Já escreveu o sábio Nelson Rodrigues: "não se pode amar e ser feliz ao mesmo tempo".

Não que amasse, não fazia isso há tanto tempo que até já tinha esquecido. Pelo menos, não amava homens. Amava os cigarros que não fumava e o café que bebia sempre, mas que, agora, às 2h30 da manhã, insistia em querer tomar. Deitada na cama, antes de dormir. Contra todas as recomendações médicas.

Mais do que ser contra tudo o que os médicos insistem em indicar, era contra sair da cama quente na noite chuvosa. Ia ficar ali e dormir na marra, mesmo que a vontade de um cigarro me mantivesse acordada. E eu nem fumo. Credo.

Precisava sair. E de cigarros. E de álcool. Talvez as três coisas juntas. Precisava de um pouco de alegria na noite chuvosa que teimava em piscar relâmpagos da janela. Precisava parar de lavar a louça e cozinhar e fazer exercícios e voltar a sair e encher a cara e voltar tropeçando na escada.

Um irish coffee, uma nuvem de fumaça. Uma noitada num boteco esbranquiçado pela névoa do cigarro, escurecido pela falta de luz. E umas doses de tequila. Uma mensagem: "não sei quem é você nem o que você fez com a Letícia, mas eu a quero de volta".

Eu também.

Dias que pedem um cigarro e um café, mesmo que você não fume. E uma garrafa de vodca, na guia da calçada, vendo o dia amanhecer. Mesmo que você não beba.

Porque eu sou contra preocupações na hora de dormir e em todas as outras horas do dia também. Os dias devem ser felizes com cafés durante a tarde, mesmo que com adoçante. E cigarros durante a noite, mesmo que sem companhia. E companhias durante toda a semana, mesmo que sem amor.

Continua chovendo e a cama continua quente. O sono começa a chegar e os relâmpagos insistem em iluminar o quarto a cada três minutos. Pessoas mortas, vivas e recém-assassinadas. Girando em volta da minha cama me lembrando o quão difícil é dormir quando se precisa de um café e um cigarro.

Até o sono chegar de vez.


ZzzZZzZzZZZzzZZzZ...

postado por: Letícia Junqueira - Lady Erinyes 7/10/2006 04:07:44 PM





Terça-feira, Junho 20, 2006

{ Manifesto pelo ócio }



Eu defendo. Todo mundo deveria ter ao menos um dia na semana sem fazer nada. E não falo só de não trabalhar, não ir pra aula e atividades corriqueiras efetuadas geralmente de segunda a sexta (e, às vezes, sábados de manhã). Falo de não fazer nada. Não usar esse tempo fazendo faxina, nem lavando o carro, nem tendo que levar o cachorro para passear.

Um dia totalmente seu, sem obrigação nenhuma, fazendo só o que der vontade - e se der. Assim, você poderia gastar sua noite de sábado dançando enlouquecidamente na balada. Ou dormindo bem quentinho e aninhado na sua cama. Sim, porque, às vezes, há a obrigação social de sair no final de semana e se divertir (mesmo que você não queira e não se divirta). Uma dessas tais obrigações que a sociedade impõe, como manter a cozinha arrumada, casar e ter filhos. Mas não fujamos do tema.

Semana passada, o feriado prolongado. Era muita coisa pra eu fazer. Quer dizer, na verdade não era. Eu só não queria fazer. Tive quatro dias completamente ociosos, enquanto a pilha de afazeres acumulava. Curiosamente, sempre que eu digo "não fiz nada do que devia no feriado", um movimento solidário me apóia, ao coro de "eu também não".

Mas as pessoas não estavam felizes. Estavam com culpa de não terem feito nada. Culpa do sistema, da educação cristã, da falta de prozac, sei lá. Mas que isso não está certo, não está.

Proponho, então, o manifesto pelo ócio. Por dias inteiros deitado no sofá, assistindo a filmes e dormindo no meio deles, se isso for o que você realmente quiser fazer. Por tardes deitado ao sol, olhando o céu e as formiguinhas carregando migalhas (as formigas também podem ter um dia de ócio, se assim desejarem).

Um movimento pelo direito de não fazer absolutamente nada, sem culpa e sem pensar no que deveria ser feito.

Todos os cidadãos devem ter o direito de passear vagarosamente no shopping, sem medo de perder a hora da sessão de cinema. Devem lamber seus picolés na velocidade que quiserem, sem se preocupar se está derretendo e pingando na blusa. Devem comer quando têm fome, sem se ater a horários pré-determinados para realizar refeições, bem como não obedecer a horários de dormir e de sair da cama.

Aliás, defendo o direito do cidadão não levantar da cama, se esse for o seu desejo. E passar o dia entre travesseiros, lençóis e cobertores.

Manifesto-me pelo direito de não correr no parque, de não ir ao mercado e de não cozinhar. De não ir ao boteco encher a cara com os amigos, de não ler e de não passar os dias namorando ou indo à festa do primo de cinco anos.

Pelo menos um dia na semana.


Naaaaaaaaaaaaaada...

postado por: Letícia Junqueira - Lady Erinyes 6/20/2006 01:33:45 PM





Terça-feira, Junho 06, 2006

{ Fábula do Hexa }




"A Copa do Mundo é nossa, com brasileiros não há quem possa". Não, não há. Ele sabia disso quando separou sua camisa da Seleção, guardada especialmente para a ocasião. A mesma da Copa de 2002, a mesma do Penta. Em 98, ele preferiu vestir uma camisa nova ao invés da usada em 94, no Tetra. Deu no que deu. Tudo culpa dele.

Mas isso não aconteceria agora. Seriam seguidos os mesmos passos de 2002 e 1994, exceto por um problema: nas duas Copas, ele estava morando com alguém a quem ele chamava de "meu amor" - hoje ela é a "mal-agradecida". Uma esposa, embora não fossem casados - a mãe dela diria "amasiados". Independentemente do status do relacionamento que tinha na época, sempre assistiu aos jogos junto da bem-amada. E agora, a uma semana da estréia do Brasil na Copa, era um homem solteiro. Ah não.

Ele tentou impedir a saída dela de casa. "Você não pode me deixar. Não agora. Espera a Seleção voltar com o Hexa, aí a gente termina". Era pedir demais? Ela era mesmo uma traidora da pátria, alguém que não se importava com as glórias da nação em que vivia. Maldita.

Agora era tarefa dele encontrar alguém para dividir o mesmo teto. Em uma semana. Qualquer pessoa com sentimento patriótico entenderia e aceitaria morar com ele, beijá-lo nas comemorações de gol, deixar a cervejinha para gelar, fazer cafuné para acalmá-lo, pular com ele ao fim de cada jogo. Manter as tradições. Nada demais.

Ao fim da Copa, ela voltaria para casa e eles nunca mais se veriam - e então ele teria quatro anos para procurar uma nova companheira.

Uma semana. Parecia um tempo bem restrito, e ele não sabia exatamente como encontrar essa mulher. Optou pelo modo mais rápido de resolver o problema - algo que a propaganda na tv chamava de "classificados". Decidiu dizer o fundamental: "procura-se mulher disposta a fazer o Brasil ganhar o Hexa. Forneço acomodação e alimentação".

Curiosamente, ninguém respondeu em cinco dias. Parecia um bom anúncio. Mas era Copa do Mundo, quem ia perder tempo lendo os Classificados? Todo o jornal era verde-amarelo. As pessoas só queriam ler o Caderno de Esportes. Era o princípio do fim. Seria, novamente, o culpado pela derrota do escrete canarinho.

Foi até a porta do prédio observar a alegria das pessoas. Coitadas. Não sabiam ainda que a Seleção não traria a taça dessa vez - e por causa dele. Sentou, cabisbaixo, na escada em frente ao prédio. Tudo perdido.

De repente, uma mala e um par de pernas femininas. Bem em frente a ele. "Oi, você sabe onde tem um hotel em que eu posso ficar só durante a Copa?". Ele sorriu.

Deus é brasileiro e a Copa do Mundo é nossa. Mais uma vez.


Não aguento mais Copa do Mundo...

postado por: Letícia Junqueira - Lady Erinyes 6/6/2006 02:58:39 PM





Quarta-feira, Maio 31, 2006

{ Histórias Curitibanas }




Levantava, fazia o café. Lavou, passou e cozinhou pra ele. Foi elemento sorridente nos jantares formais em que sua presença era necessária. Deu-lhe uma filha. Cumpriu seu papel na sociedade. Casada, esposa e dona-de-casa, mas cuspiu no café dele por pelo menos 27 anos.

Confessa. Vez ou outra, assoou o nariz e misturou no café com leite.

*

Eu não acredito nisso de amor. Nunca achei ninguém que me amasse. Nunca achei ninguém que merecesse me amar. Eu casei e pronto. Depois de velha, procurar o amor? Não. Eu só procuro o que eu posso encontrar.

*

Uma mulher tão boa. Uma tristeza ser passada pra trás desse jeito. Ai se fosse comigo. Olha lá, judiação. Toda preocupada com as crianças. É bom, a gente chega e deixa os meninos com ela. Aquele marido dela não deixa ela se divertir, pelo menos assim ela se ocupa, não é? Coitada ser corna desse jeito. Olha, o marido safado tá olhando pra cá. Ah, mas até que ele é bonitão.

*

Não agüentava mais esfregar e deixar de molho as camisas sujas de batom. Foi ter com o marido. Se ele continuasse com isso, teria de tomar medidas drásticas: usaria sabão de coco pra tirar as manchas, mesmo que ele não gostasse do cheiro. E tinha dito.

*

Velha ridícula. E não me venham com essa de que se arrependeu do passado conservador, porque ninguém se arrepende de ser decente.

Rebolava na rua, metida numa mini-saia. Mulher com filha e netos fazendo esse papelão. Credo em cruz.

*

E, por fim, algumas coisas nunca mudam. Como a torta de maçã da minha mãe. Era sempre a mesma torta, quase todo fim de semana. Torta de maçã ou pudim de leite, mas a primeira é a que nunca muda. Sempre o mesmo sabor. Sempre as mesmas lembranças. Os mesmos domingos, recheados de Show de Calouros, com o Silvio Santos. Os mesmos dias de quando eu tinha 6 anos.

Sábado arregacei as mangas e fui pra cozinha. A mesma torta, dessa vez com adoçante (malditas gorduras!). Ainda assim, era a mesma. A da minha mãe.

Por outro lado, continuo na biografia do Leminski. O autor, Toninho Vaz, fala de um companheiro do poeta, chamado Lélio Sotto Maior. Juro que tive, com ele, uma palestra na faculdade. Lembro da dificuldade que tinha em falar - balbuciava frases sobre Glauber Rocha. E é isso. Não lembro mais nada. A mim, parecia um velhinho, já meio gagá.

E esse gagá descia a rua XV, mãos dadas com seu amigo Paquito, batom vermelho na boca a chocar os curitibanos (sempre) conservadores da década de 60. Em 2006, devem continuar tão conservadores quanto antes. Porque são como a torta de maçã da minha mãe.


É...

postado por: Letícia Junqueira - Lady Erinyes 5/31/2006 03:22:13 PM





Segunda-feira, Maio 22, 2006

{ Uma história sobre varais }



Num domingo à noite, Café do Teatro, conversavam sobre qualquer coisa que ela não lembrava. Estava há um bom tempo olhando pela janela. Fundo de um prédio de apartamentos, um varal. Ela tentava identificar as peças. Não conseguia, estava muito longe. Um pedaço de pano vermelho chamava a atenção, grande demais para ser uma calcinha, muito pequeno para ser uma blusa.

Tentava descobrir. Um lenço de homem? Uma camiseta de criança? Não sabia dizer. Engoliu a vergonha e confessou: olhava varais alheios.

Existem vários meios de se observar pessoas. Ela gostava de todos eles. Quando mais nova, lia a "Comédia da Vida Privada", de Luiz Fernando Veríssimo, e criava todas as cenas na sua cabeça. Até que viraram episódios na televisão, e ela confrontava sua versão com a exibida. Era uma apaixonada por olhar a vida dos outros.

Ele falou na possibilidade de revirar o lixo - o que a ela parecia muito trabalhoso, mas a técnica foi usada em uma das histórias de Veríssimo. Varais eram tão mais práticos. Diziam quem morava naquela casa. Se usava meias coloridas, esportivas ou sociais. Se havia crianças. Se as cuecas eram furadas, se as calcinhas eram grandes.

Sempre teve a mania de olhar os outros. Uma das maiores diversões era andar olhando pra cima. Deviam achar que era uma maluca. E daí? Descobriu bananeiras nas coberturas do Rio de Janeiro. Viu pessoas normais vendo tevê no início da noite. Gente lendo na sacada. Muita gente fumando nas janelas.

Aliás, tinha descoberto que fumantes também gostavam de observar outras pessoas. Porque sempre que tinham que fumar na janela, acabavam exercitando seu lado voyeur de viver a vida. Eram os fumantes que a enxergavam dentro do carro, quando ela, parada no sinal, procurava sinal de vida nas janelas dos prédios. Os únicos.

Ela não fumava. Mas gostava de olhar pessoas. E adorava varais. Ele disse sobre uma exposição de fotografias que tinha varal como tema. Várias fotos, panorâmicas. Grandes varais, repletos de possibilidades.

Mas ele não pensou nisso, só viu as cores e achou bonito. Uma pena. Ela teria criado uma história para cada foto. Com cenas de amor e ódio. Roteiros complexos, cheios de tramas. Mesmo que fossem só pessoas com o cotidiano mais comum que se pode imaginar.

E qual seria a graça em imaginar que todo mundo leva uma vida besta?

Pegou o copo de cerveja e tornou a olhar o varal. Talvez o pano vermelho fosse só um guardanapo. Ou um lenço de pirata usado naquela festa à fantasia, quando se beijaram pela primeira vez. Quem sabe?



Ou então...

postado por: Letícia Junqueira - Lady Erinyes 5/22/2006 11:56:05 AM





Terça-feira, Maio 09, 2006

{ É Carnaval }



Uma máscara. Era assim que ele se definia a quem perguntasse (não que alguém efetivamente o fizesse). Como se todos os dias fossem Carnaval, como se a fantasia fosse roupa de civil, de todo dia, de ir ao trabalho, à feira e ao cinema.

Vestia sua roupa de pierrô, com lágrima escorrendo no rosto e sorriso rasgado na cara, e ia interagir naquele grande baile de máscaras chamado mundo. Ninguém parecia se incomodar com a fantasia alheia. "Cada um é o que aparenta ser", era a regra. Fazia todo o sentido encontrar Cleópatra na fila do pão ou o homem das cavernas no bar. Eram máscaras, e nada mais. Para levar a existência de forma que ninguém se perguntasse o porquê.

Mas Drummond estava certo e tinha uma pedra no meio do caminho. Naquela manhã - que ele não se lembra se era de sol ou de chuva -, alguém parou em frente ao pierrô e o olhou nos olhos, por trás do disfarce. O palhaço, que a mim sempre teve um quê de triste com sua obrigação de rir e fazer rir o tempo todo, gelou. Dentro dele, todas as lágrimas disfarçadas corriam livremente, como num rio.

(No silêncio completo da noite, era possível ouvir o murmurar desse rio que corria dentro dele, quando a máscara finalmente ficava jogada no chão do banheiro. Durante o dia, carros de som, buzinas, ônibus, gritos, televisão, nunca ninguém era capaz de ouvir o som das lágrimas que o percorriam.

Nunca, até aquele momento.)

Arrisco dizer que, por alguns segundos, o rio dentro dele parou de correr. Alguém se dignou a transpor aquela barreira que o protegia do mundo.

"Por quê?". Foi só o que disse, para sumir entre aquele estranho baile de máscaras. O pierrô não lembra de ter visto fantasia, mas preferiu acreditar que aquele ser era um anjo (como preferiu acreditar que todos os responsáveis por fazê-lo tão triste eram demônios).

Era mais fácil acreditar num cotidiano fantástico, onde todos têm papéis bem definidos; o canalha, a pervertida, a santinha, o vagabundo. Todos sabem do que são capazes - e o pierrô sabia o que esperar de cada um deles.

(Nesse mundo repleto de máscaras, a definição do que somos se torna elemento vital e facilitador.)

Alguém quebrou a barreira e encontrou o homem por trás do palhaço. Ficou a pergunta. "Por quê?"

Decidiu se despir ali, no meio da rua. Não fosse o pierrô e fosse um nu. Um maluco no meio do baile. Não seria mais o palhaço. Não, isso não. Seria o que procura a pessoa por trás da máscara. Que faz a música parar por um segundo, para olhar nos olhos de outro e perguntar: por que?


Alalaô ooô ooô...

postado por: Letícia Junqueira - Lady Erinyes 5/9/2006 02:03:07 PM





Terça-feira, Abril 25, 2006

{ A tortura telefônica }



O telefone às vezes nos faz mal
E sem querer acaba uma paixão
Eu me chamo Zé, pois é, fiz a ligação
E ela disse "alô, João"
(Baden Powell)*


Ela esperou muito o telefone tocar naquela noite. Na verdade, conseguiu segurar os instintos por umas duas horas, quando tomou banho e dormiu esperando que ele ligasse. O relógio insistia em fazer andar os ponteiros e o telefone insistia em continuar mudo.

Reorganizou tudo pela quinta vez. Deitou na cama com o cuidado de não amassar a roupa recém-passada. Ficaria ali, esperando. Porque ele ia ligar em breve. Ele prometeu, ela acreditou.

Estava tudo pronto. O vinho, o incenso, a roupa, a cama. Tudo planejado. Ela ficou ali, ao lado do telefone. Pedindo pra ele tocar. E então ele chegaria e eles teriam a mais agradável e inesquecível de todas as noites.

Mais quarenta minutos e nada dele. Ela começava a escorregar na cama, e a roupa começava a amassar. Mas é claro que ele ligaria. E então ela passaria a roupa de novo e faria o retoque na maquiagem e no perfume. Porque ele só deve ter se atrasado. Nunca a deixaria esperando tanto tempo. Ela cochilou. Mas só por uns minutos. Uns 17 minutos.

Acordou e viu a cara de sono no espelho. A roupa amassada. Achou melhor ficar acordada e fazer alguma coisa que a animasse. Tudo em seu devido lugar, só faltava o telefone tocar. Ansiosa, tamborilando os dedos no móvel, olhando aquela invenção fantástica de Graham Bell.

Ela começava a acreditar na intuição que teve de manhã. Ai dele se não telefonasse. Ela o picaria em pedacinhos. E ele teria a pior noite de toda a vida.

Mais meia hora, ela manda uma mensagem no celular dele. Ele simplesmente não responde. Ela inventa uma desculpa qualquer para o silêncio, porque realmente queria acreditar naquilo tudo. Queria continuar acreditando nele. E nela, em especial.

"O homem planeja, e Deus ri".

Era isso, naquela hora Deus devia estar rolando de rir no chão do céu. Era um homem também, o maldito. Esperou mais 20 minutos e desistiu. O telefone não tocaria. Ela maldiz toda a raça humana do sexo masculino. Pensa na grana toda, na produção.

Furiosa, pensou em quebrar a garrafa de vinho - aquele maldito vinho - na cabeça dele, caso ele se desse ao trabalho de telefonar. Achou melhor não devolver a cama aos gatos ainda. Antes afastados para não presenciarem uma noite de amor, agora eram poupados de uma possível cena de tortura e assassinato.

Recebeu uma mensagem no celular desmarcando tudo à 1h15 da manhã. Desligou o aparelho. Desarrumou a cama, abriu uma garrafa de vinho e foi ver "O Fabuloso Destino de Amelie Poulain". E jurou nunca mais esperar o telefone tocar.


*porque não é de hoje que telefones são instrumentos de tortura...


Riiiiiiiiiiiing!

postado por: Letícia Junqueira - Lady Erinyes 4/25/2006 08:11:00 PM





Quarta-feira, Abril 05, 2006

{ Foi só um engano }



Ahm? Mas com quem eu tou falando? Devo ter me enganado.

Isso aí. Desculpe, foi engano.

Aliás, essa foi a frase do final de semana. Na primeira vez, dita pela minha nova companheira de casa, ligando pro namorado e falando com um completo desconhecido.

"Oi, tudo bem?"
"Tudo bem, o que que você tá aprontando?"
"Ah, tou aqui, blábláblá."
"Que bom, e..."
"Peraí, quem tá falando?"
"Maurício."
"Ah, Maurício, eu queria falar com o Luciano."
"Não tem nenhum Luciano aqui."
"Ai, desculpe, acho que me enganei!"

Em seguida, toca o meu celular.

"Quem é?"
"Letícia"
"Letícia? Mas de quem é esse celular?"
"É meu, uai!"
"Você esteve em Barracão no final de semana?"
"Ahm? Não! Nunca estive em Barracão."
"Maldita, me deu o número errado, aquela vaca. Desculpa, foi mal."

E assim foi. Começou a sexta à noite e se estendeu até segunda no começo da tarde, na verdade. Vários telefonemas enganados. Teve engano até no MSN, programa de mensagens instantâneas na internet. Não era possível que tanta gente se confundisse assim, justamente com o meu número.

Só faltou ligarem pedindo uma pizza. Ou um exame de próstata. Quase todas as alternativas um pouco menos bizarras aconteceram.

Ignorando todos os sinais sobre o quesito "engano", na segunda, fui conversar com o moço com quem eu saía há mais ou menos um mês. Aquela situação meio esquisita, nós meio brigados, sem nos falarmos há dois dias depois de uma espécie de crise.

Pois veja bem, as coisas são assim mesmo. A culpa não é de ninguém.

Todas as noites que passamos juntos, as risadas que demos juntos, as comidas que preparamos juntos. As vezes em que dissemos que gostávamos um do outro. Os beijos que trocamos, apaixonados na cama, fugidios em frente aos que não sabiam que estávamos juntos.

Desculpe, foi engano. Aquela mulher que eu achei que gostava, vai ver, não era você. Até mais.

Tu tu tu...

Alou?

postado por: Letícia Junqueira - Lady Erinyes 4/5/2006 08:35:12 AM





Quarta-feira, Março 29, 2006

{ Eu tô falando de amor }



"Mas são tão loucas as coisas que fazemos para ser felizes, que amar deve ser só mais uma delas".

Elas conversavam. Porque realmente não dava pra viver ao lado de um bêbado o tempo todo. E eu ainda sou muito nova pra agüentar tudo isso, credo.

Eram três mulheres na mesa. Duas taças de vinho, uma bandeja do McDonald's. Alternavam-se na discussão a mais velha e a mais nova. Com relacionamentos amorosos recém-terminados, falavam sobre os ex-namorados - mesmo que para se convencer da escolha que tinham feito.

Falavam de família. De filhos, marido, morar junto.

Uma das mulheres, naquela mesa, não conseguia acompanhar a conversa. Pensava no quão longe é do outro lado do Atlântico. É longe o bastante para esquecer alguém? Ou só o suficiente para querer estar muito mais perto do que se está?

Perguntou-se o que ia acontecer agora que a distância entre eles realmente ia existir. Durante todo esse tempo, mesmo quando afastados, eles sabiam que podiam se encontrar a qualquer momento - desde que os dois concordassem com a idéia.

Ah, porque não dá pra agüentar essa proximidade toda. Morar junto é um saco. Chega uma hora em que você passa em frente à pessoa quinze vezes e ela nem percebe. É como se a gente fosse mero objeto de decoração, sabe como? A mais nova concordava com a cabeça.

Na verdade, a que só ouvia a conversa não sabia. Sempre que se encontraram, tudo o que nunca aconteceu foi nada. Sempre foi intenso demais - e, por isso, talvez, nunca tivessem um relacionamento nos moldes usuais.

Eu não quero gostar de ninguém, agora vou cuidar só de mim. Só quero caras que me dêem tudo o que eu preciso, amor, carinho, cuidados. "Homens de verdade, sabe como?", dizia a mais nova. A mais velha concordava.

A outra, sem dizer palavra, lembrou que seu homem de verdade era um menino. Com idade e emprego de gente grande, mas só um moleque. E era o que ela mais gostava nele. Aquela irresponsabilidade responsável, de quem sabe quando pode enlouquecer e quando tem que seguir o caminho certo.

O vinho acabou. Sobrou o milk shake de baunilha. Vamos fazer compras? Preciso me presentear, me reerguer. Acabei de sair de um relacionamento, eu mereço!

Vamos.

Enquanto a mais nova e a mais velha olhavam botas, a outra decidiu. Se não achar nada que acabe com esse aperto no peito, aproveita e compra uma passagem pra cruzar o Atlântico.


Arram...

postado por: Letícia Junqueira - Lady Erinyes 3/29/2006 01:41:05 AM





Quinta-feira, Março 16, 2006

{ Pode ser que nunca mais }



"Quero uma chance de tentar viver sem dor". Mudou a estação do rádio. Era um dia daqueles comuns, com o espaguete cozinhando na panela enquanto ele, sentado no balcão da cozinha, tomava uma taça de vinho vigiando a massa. Em que não queria pensar em nada, pra não se lembrar dela. Nem que estava sozinho. De novo.

A verdade é que tinha, lá no fundo, a esperança de que ela aparecesse como quem não quer nada. Com seu cheiro de banho recém-tomado e o frescor das manhãs de outono, que finalmente pareciam ter chegado. Trazendo o sorriso que ele tanto queria ver e mais uma garrafa de vinho.

E seria mais uma daquelas tardes que se arrastavam até a manhã do dia seguinte, em que eles se enrolavam um no outro o dia todo, ouvindo B. B. King, Lenine e Seu Jorge. Sem fome, "matando a sede na saliva" (sim, também ouviam Cazuza).

Mas ela não foi naquele dia. Nem no seguinte. O macarrão deu a passar do ponto, e o vinho virava vinagre assim que era aberto. "Eu sei que parece muito estranho, meu sonho resolver me abandonar". Amaldiçoou as traduções de Seu Jorge sobre as músicas do Bowie.

Não era a primeira vez que ficava sozinho. Para ser sincero, já tinha se acostumado, até o dia em que ela surgiu. Em que eles se olharam e sabiam o que ia acontecer, sem que nenhum dos dois dissesse palavra. Foram dias felizes, mas que nunca voltariam a se repetir.

Ele nunca mais ouviu o toc toc dos passos dela no corredor.

Nunca mais sentiu o cheiro dela. Aquele cheiro que lhe dava vontade de arrancar a roupa dela em qualquer lugar, fosse na cama ou entre as prateleiras de enlatados do supermercado.

A risada alta, que ele gostava tanto, mesmo que às vezes sentisse vergonha da atenção que ela chamava em qualquer lugar.

Os olhos pretos e grandes, que sorriam sem que ela precisasse mexer os lábios.

Nunca mais a ouviu gemendo enquanto se espreguiçava pela manhã, nem enquanto faziam amor. Nem as reclamações sobre as piadas sem graça que ele fazia, ou a manha que ela insistia em fazer nos dias de tensão pré-menstrual.

"E vem o sol fazer ficar tudo bem". Vários dias de sol vieram, mas ela não voltou a fazer parte da vida dele - a não ser nos sonhos que ele tinha, acordado ou dormindo, durante todo o dia. Durante todos os dias em que ela esteve longe dele.

Ele decidiu que precisava ter com ela.

Passou na floricultura e comprou as flores do campo mais bonitas que encontrou. Eram suas preferidas: simples, mas capazes de alegrar uma vida toda. Como ela.

Perguntou ao porteiro onde ele poderia encontrá-la. Rua C, quadra dois.

Parou em frente ao túmulo. Deixou as flores e pediu desculpas por deixá-la ir. Agora estavam os dois sozinhos.


Post mortem:

postado por: Letícia Junqueira - Lady Erinyes 3/16/2006 12:05:44 AM





Terça-feira, Março 07, 2006

{ Discussões de Relacionamento }



"Brigas de casal podem fazer mal ao coração". Era esse o título de uma matéria que li anteontem, na internet. Mas que diabo de notícia é essa?

Todo mundo sabe que picuinhas a dois, independentemente do grau de relevância das mesmas, causam sempre aquele aperto no peito, coração acelerado e aquela falta de coragem de encarar a pessoa depois. O medo de que o outro olhe e diga "eu não queria mais ficar com você mesmo". E as mãos suam, dá palpitação e vontade de gritar. Precisa de notícia pra dizer isso?

Mas um dia ela acordou e descobriu que precisava ter uma discussão de relacionamento. Mesmo que, no mundo dos rótulos, não soubesse exatamente que tipo de relacionamento era aquele. E se perguntasse se era certo discutir a vida a dois com alguém que não era seu namorado. Muito menos marido. Nem amante, nem ficante. Alguém com posição indefinida em uma das tantas categorias que poderia se enquadrar. Simplesmente a pessoa de quem ela gostava, e com quem queria estar naquele momento, como esteve em tantos outros. E ponto.

Na verdade, ela não tinha dúvidas sobre se devia ou não falar com ele. Tudo que ela tinha medo era que ele simplesmente dissesse que gostava dela. E se seguisse aquele silêncio, cortado pela continuação "mas é que...". Teve vontade de sair correndo. De largar mão de tudo, que era tão mais simples. O estômago embrulhou, perdeu a fome, teve pesadelo. O coração disparou, parecia querer sair pela boca. Ficou borocoxô, depois de mau-humor.

Ameaçou chorar. Pensou em porque tudo sempre insistia em dar errado, em porque os homens são assim, na morte da bezerra, na derrota do time de futebol, na conta do banco estourada, na miséria da existência humana e... acabou falando com ele. E se entendendo (pelo menos ela acha que sim).

"Brigas de casal podem fazer mal ao coração". Eu decidi clicar no link e ler a matéria. Fiquei curiosa com que novidade a tal notícia achava que ia trazer. E leio: "Brigas de casal podem endurecer as artérias, de acordo com um estudo da universidade americana de Utah".

Endurecimento de artérias? Depois disso tudo, quem se importa com umas drogas de artérias entupidas?

Argh. Mais essa. Além de tudo, ainda vai enfartar o dito cujo com quem sai.


Ninguém disse que ia ser fácil...

postado por: Letícia Junqueira - Lady Erinyes 3/7/2006 02:15:13 PM





Terça-feira, Fevereiro 21, 2006

{ It´s only rock´n roll }



Decisão tomada num momento completamente perdido, daqueles dias sem dinheiro e sem amor, em que a gente se pergunta o que diabos está fazendo na Terra. Eu inventei a resposta: "estou esperando o show dos Stones".

Eu fui. E ainda não voltei.

Segunda, resolvi ver a apresentação do U2 na televisão. Ouvi duas músicas e desliguei. Eu ainda não voltei do Rio de Janeiro.

Eu cheguei de viagem às quatro da manhã, tomei banho, fui pra aula, fui trabalhar. Mas ainda estou no show dos Stones.

Continuo meio catatônica, como quando vi Mick Jagger, calça preta e jaqueta prateada, entrando no palco ao som de Jumpin' Jack Flash. Troquei o óleo do carro hoje cedo, mas sigo ouvindo Wild Horses ao fundo.

A única pessoa que podia me trazer de volta de lá, preferiu me deixar no Rio de Janeiro. Com a imagem do palco gigantesco e de um décimo da multidão que eu acho que consegui enxergar. Então eu continuo no show, olhando para tudo e para todos fixamente, mal me mexendo. Captando o máximo de informação em duas horas. Desviando dos ambulantes e alheia aos gritos de "três refri é cinco real".

Ainda consigo ver a multidão pulando e eu, parada no chão, simplesmente sem conseguir me mover. Eu travei. Continuo travada, até agora. Porque eu estou em Curitiba, mas ainda não voltei do Rio.

Não foi tranqüilo, isso é fato. A aglomeração de espectadores era gigantesca e a dificuldade dos bombeiros em transitar naquele mar de gente era visível. Quase desesperador, eu diria. Foi nesse momento que levaram meu celular, numa onda de furtos embasbacante: praticamente uma tentativa a cada 30 segundos, durante uns cinco minutos. Ufa. E o show nem tinha começado.

A entrada daqueles senhorinhos sexagenários muda tudo. Não vi brigas e não vi roubos. Aliás, não vi nada: só os Rolling Stones. Sexagenários o diabo. Pareciam todos ter 20 anos, inclusive o guitarrista Keith Richards, que assume os vocais em duas músicas. O mundo é roqueiro. Até o ambulante ao meu lado respeita, e grita somente nos intervalos entre uma música e outra.

O show acabou há mais de três dias. Mas não pra mim. Eu continuo lá, na praia. Eu e um milhão de pessoas.

Segunda à noite, tentei assistir ao show do U2 na televisão. Impossível. Todas as imagens se transformavam e eu acabava vendo os Rolling Stones. E eu até queria ter ido pra São Paulo pra ver Bono Vox e companhia.

Não sei quanto tempo vai demorar pra eu fazer o caminho de volta para a vida real. Eu ainda consigo sentir as lágrimas de quando o show acabou e meus amigos incrédulos me perguntaram se valeu a pena.

É claro que valeu a pena. É um show eu assisto há mais de 72 horas, mesmo dormindo. Porque eu ainda estou lá.

But I like it!

postado por: Letícia Junqueira - Lady Erinyes 2/21/2006 01:22:13 PM





Segunda-feira, Fevereiro 06, 2006

{ Ouvindo a conversa alheia }


Não é bonito, eu sei. Nada bonito, como diria minha mãe. Mas o fato é que escutar a conversa dos outros pode não ser educado, mas muitas vezes é bem educativo. Ou, na pior das hipóteses, divertido.

Ela entrou no ônibus e fez questão de sentar próxima a um casal de namorados um pouco afastados. Com experiência no ramo de prestar atenção no papo alheio, sabia que namorados melosos raramente rendem mais que um "ah, amor, eu te amo", "meu biluzinho lindo" e "oh, vou ficar com saudade essa meia hora sem você". Gostava dos que estavam de cara virada, porque significava uma daquelas discussões de relacionamento extensas, com argumentos furados e entretenimento pra quem escuta.

Ficou lá, esperando. E nada. Nem uma só palavra. Tinha vontade de se virar e pedir para que conversassem e resolvessem os problemas, "onde já se viu um casal tão bonito assim, brigado". Os dois se levantaram e desceram no ponto seguinte. Nem um beijinho. A coisa devia ser séria.

O lugar logo foi ocupado por duas senhoras muito faladeiras.
"Ah, e viu que o Seu Ademar faleceu, coitado?".
"É verdade, um homem tão bom...".

Pausa. Uns dez segundos de silêncio meio incômodo, a última continua: "é, mas eu ouvi dizer que ele tinha um caso com a moça que serve lá no bar, será que é verdade?".
"Ah, eu acho que é, sempre percebi que ele ficava olhando demais pras reboladas dela".
"Coitada da Dona Judite, um homem safado desses dentro de casa."
"Coitada nada, agora ele morreu mesmo! Bem feito pra ele."

Em pé, junto à janela, duas meninas por volta dos 17 anos.
"Mas é um cachorro mesmo. Ai, se eu pego! Eu mato!"

Observando a cena, ela se perguntou se as meninas novas também conheciam o Seu Ademar. Mas depois pensou que não, afinal, esse agora estava falecido e já era poupado o esforço de matá-lo.

Ela olha pra frente. Entra no ônibus um homem por volta dos 30 anos, camisa e calça social. Conversa com um rapaz pouco mais novo, por volta dos 25.
"E isso tudo é coisa do diabo! Que a mulher que tem Satanás no corpo atenta o homem, que tem que ser bravo e resistir. Mas a culpa é dela, em primeiro lugar, porque instiga a luxúria num homem sério e trabalhador."

Pronto, até advogado o falecido Seu Ademar já tinha achado. A culpa era da moça do bar, veja só. Aquela provocação ambulante.

Na verdade, ela descobriu logo depois que o tal homem que falava do capeta tentava argumentar seu próprio pecado, numa comparação meio manca com a história de Adão e Eva. Mas a culpa não era dele, isso não. Nem deveria ser do Seu Ademar.

As senhoras continuavam no papo animado, e ela chegava perto do ponto de descida. Levantou-se, pronta para descer. Mas antes de saltar, interrompeu a conversa das mulheres e mandou os pêsames para Dona Judite. Coitada.


...

postado por: Letícia Junqueira - Lady Erinyes 2/6/2006 11:23:45 PM





Sexta-feira, Janeiro 20, 2006

{ O jeito que as coisas são }



Tenho uma amiga que diz sempre que a cantora Fiona Apple é a mulher mais azarada do mundo, amorosamente falando. Hum. Temos um páreo duro.

Durante duas semanas, eles trocaram e-mails diariamente. No único dia em que ele não a respondeu, ela mandou uma mensagem pelo celular - que ele prontamente respondeu, telefonando e pedindo desculpas. Era um bom relacionamento. Está bem que essas coisas não acontecem, e que são histórias fadadas ao fracasso logo nos primeiros cinco minutos.

Quando não vão ralo abaixo, se transformam em uma daquelas histórias de amor que todo mundo acha bonita. De amores predestinados e de almas gêmeas.

Eles se conheceram no último dia do ano, em um dos lugares mais bonitos em que ela já foi. Uma dessas visões que se pode ficar olhando por horas sem cansar - quando ela repousava o livro sobre o colo e se perdia olhando pra baía ao redor da casa. De vez em quando, o olhar saía do mar e ia parar nele, que sorria.

Devia ter percebido o sinal. Lia a biografia de Clarice Lispector e, talvez, tal qual a escritora, estivesse malfadada a amores que nunca dariam certo.

Naquela noite, uma série de desencontros. Acabou deixando o moço no bar, um desses bares perfeitos para o começo de um romance. Ele continuava sorrindo, mas por alguma razão desconhecida, não se entenderam.

Contrariando todos os prognósticos, no primeiro dia do ano ele bateu à janela dela às 3h da manhã. Queria vê-la antes que fosse embora. Ela não sabia se era o destino tentando corrigir as coisas, mas ao invés de ficar se perguntando, achou melhor aproveitar bem suas últimas horas naquele paraíso.

Foi depois disso que eles se distanciaram. Ela saiu, conheceu gente nova e até recebeu serenata na praia, em uma dessas madrugadas em que se chateou com a cidade e achou melhor passar meia hora com os pés na areia, vendo o mar. Talvez para recobrar um pouco da história daquele primeiro dia do ano.

Pensava nele de vez em quando. E, novamente indo contra as expectativas, encontraram-se de novo no mundo virtual. Foram aquelas duas semanas trocando e-mails. Só que, no real universo moderno, a internet que une é a mesma que afasta.

E ela passou a desconfiar que essas histórias de amor e destino devem mesmo não passar de balela pura. Retomou a leitura de Clarice Lispector. Colocou o CD da Fiona Apple pra tocar.


"I wouldn't know what to do with another chance
If you gave it to me
I couldn't take the embrace of a real romance
It'd race right through me
I'm much better off the way things are"
Fiona Apple



É, ninguém disse que ia ser fácil...


postado por: Letícia Junqueira - Lady Erinyes 1/20/2006 10:09:22 AM





Terça-feira, Janeiro 10, 2006

{ Uma flor roxa no pára-brisa }



Um dia a gente tem que crescer. É o que dizem. Crescer, ter emprego, casar e ter filhos. Eu não tenho nada disso. E acho que cresci.

É claro, não estou falando sobre crescer centímetros - até porque isso é relativamente limitado (tratamentos e um bom salto, para as meninas, ajudam). Falo sobre um processo que eu não sei se percebi acontecer. Sempre me pareceu que crescer exigisse um ritual. Formatura. Casamento. Qualquer coisa do tipo. E sempre me preparei para isso, fornecendo tudo o que fosse preciso para cumprir o cronograma da vida normal - e, consequentemente, o crescimento apareceria.

Mas não. Foi justamente quando me vi sem emprego e sem namorado que tudo aconteceu. Eu cresci quando descobri o que eu quero e - mais que isso - o que eu não quero pra preencher os meus dias, agora tão cheios de mim mesma. Mais ou menos como uma chance de recomeçar, fazendo as coisas do jeito que eu considero certo, e não como disseram que ia ser. Eu, talvez pela primeira vez na vida, finalmente sei o que estou fazendo.

Quinta à noite, cinco mulheres em torno de uma mesa. Uma casada, uma noiva, duas com namorados e eu, solteira. Todas com 25 anos. Discussões sobre a vida a dois, a maravilha de se dividir as escovas de dentes. Eu, dos 17 aos 25 anos, praticamente emendei um namoro em outro, meio sem saber o porquê. Afinal, é o que todo mundo espera, que as pessoas namorem e se casem. Não é?

Era o que eu achava. Queria logo cumprir o meu papel e resolver o problema. Mas nenhum namorado deles me fez feliz por mais de três anos. Foi quando eu descobri que não adianta só ter um cara bacana, inteligente, trabalhador e que goste de mim, como minha mãe explicou. E nem adianta só a gente se formar e trabalhar. É preciso mais que o salário no fim do mês pra gente ser feliz.

Mas nada disso importa naquela mesa de senhoras comprometidas e com empregos, porque eu não tenho um namorado, um chinelo velho pro meu pé cansado. Não tenho homem da minha vida aos 25 anos e não tenho nem sequer um caso. Que horror. Sou uma encalhada. Que desgraça. Que tragédia. Como é que eu vou casar e ter filhos antes dos 31? Sou uma mulher fadada ao fracasso.

"Arrume um emprego, case e tenha filhos", é o que todos dizem. Eles só esquecem de dizer que isso tudo tem que fazer a gente feliz. Que, no fim das contas, cumprir tudo o que dizem que deve ser feito só compensa se você puder parar às 15h34 de um dia de semana e sorrir, aparentemente sem motivo.

Eu descobri o que me faz feliz, e não é nada que choque as velhinhas mais conservadoras da tradicional sociedade curitibana. Eu não tenho um namorado, é verdade. Nem um emprego de verdade. Mas acho que foi então que eu cresci. Agora eu trilho meu próprio caminho e, finalmente, sei para onde ir.

Hoje, dirigindo meu carro em pleno centro de Curitiba, sou presenteada com uma florzinha roxa caída do céu diretamente no meu pára-brisa. E ainda querem dizer que eu não sou feliz.

O que é preciso pra ser feliz??

postado por: Letícia Junqueira - Lady Erinyes 1/10/2006 03:51:29 PM





Segunda-feira, Novembro 21, 2005

{ Amor em tempo recorde: seis segundos }



Tempo. Quando eu era criança, queria uma máquina que pudesse acelerar ou retardar o andamento dos ponteiros. As férias e os finais de semana, todos com os segundos demorando a passar. E os dias de aula que chispassem zunindo, para que eu, de novo, pudesse voltar a ter diversão com o tempo em câmera lenta.

Hoje, me atordôo com a idéia dos prazos. Um trabalho para daqui a 15 dias - ops!, agora já são 10 -, será que vai dar tempo? Um almoço rápido: fast food, macarrão instantâneo ou esquentar comida no microondas?

Tempo esse que, dizem, corre impassível, criando em cada um de nós um estoque de lembranças e sensações. Que anda até para quem já morreu, porque quem fica aqui conta os dias que passaram - e é preciso avisar o pessoal do almoxarifado que vem uma nova carga de saudades por aí.

Quanto tempo é preciso para esquecer alguém? Quanto tempo leva pra deixar tudo diferente?

Três segundos. Foi o tempo necessário pra mudar tudo. Ele passou por mim derrubando tudo ao redor - as paredes caindo, os amigos sumindo, as árvores tombando. Três segundos. Nós nos encaramos, os olhos claros dele decifrando os meus, castanhos. Três segundos. Para, em seguida, as paredes se reerguerem, os amigos reaparecem e as árvores se levantarem e tomarem seu lugar de costume.

Inspirei o ar com força, depois de três segundos sem respirar. Não parecia muito tempo aqui nesse mundo, mas naquele, onde os olhos se encontraram, foi o suficiente para quase morrer sufocada. Máquina para acelerar ou retardar o tempo? Para que?

Foi nesse quase nada de tempo que eu voltei a sorrir, depois de péssimos dias. Foi em um vigésimo de segundo que a atmosfera tornou a ficar cor-de-rosa. Esses três segundos me fizeram perder - ou ganhar, é tudo uma questão de ponto de vista - três dias, que deviam ter sido usados para o trabalho, mas eu não consegui me concentrar.

Parece pouco tempo para uma mudança tão drástica. Mas não é. Três segundos é tempo o bastante para apertar o gatilho da arma. Para acertar aquela cesta no basquete e virar o placar. Até gol dá pra fazer nesse tempo - o mais rápido foi marcado por um uruguaio e levou só 2,8 segundos.

E ainda dizem que, para amar, é preciso tempo. Só se for para esquecer. Para se apaixonar por alguém, são necessários só três segundos. Ou talvez mais três, até que ele diga que é casado e me faça ficar boquiaberta por três segundos, sem saber o que dizer.

Do começo ao fim, foram 6 segundos. E ainda dizem que esse tal de amor presta. O mundo não é justo, definitivamente.


"As paixões são como as ventanias que incham as velas do navio. Algumas vezes o afundam, mas sem elas não se pode navegar. (...) Na terra é tudo perigoso, e tudo necessário".
Voltaire


Ai ai...

postado por: Letícia Junqueira - Lady Erinyes 11/21/2005 02:35:35 PM





Segunda-feira, Novembro 07, 2005

Dois estranhos numa manhã de cor cinza



Mais um dia cinza, como tantos outros que insistem em tomar conta da cidade. Andando pela rua pela manhã, assim que saio do carro, encaro um senhor maltrapilho, cerca de 50 ou 60 anos, enrolado em um pedaço de manta. Não faz tanto frio, mas a gripe que me derruba parece também tê-lo atingido.

Ele sorri. Aquele esboço de sorriso meio amarelado, envergonhado de rir entre a barba desgrenhada e a desgraça da porta da padaria. Olho em volta. Bairro do Batel, Curitiba. Prédios de apartamentos. Sacadas. Moradores - não, isso parecia não existir.

Tudo absolutamente vazio nos prédios em volta. Estávamos, no nível da rua, eu e aquele senhor. À nossa frente, carros e pessoas disputando espaço. Curiosamente, do primeiro andar para cima, é como se não existisse vida.

Sento-me ao lado dele na marquise da padaria. Os dois agora observando a solidão das sacadas. É verdade, alguém deve viver naqueles apartamentos todos. Mas não se vê ninguém. Olhamo-nos desacreditados.

Enquanto isso, conversamos em silêncio. Eu respiro meu mau-humor da última semana, justo eu, que não sou dada a isso.

Mau-humor.

Não foi porque eu derrubei todo o café na calça logo cedo, nem porque cheguei atrasada para a prova - que, aliás, nem teve. Não foi porque fiquei presa no trânsito ou porque a gripe me deu uma rasteira. Não foi pela insônia, nem pelos pesadelos.

Não foi por nada disso. Foi por um problema com nome e sobrenome, endereço e telefone. Foi por um problema que parece não ter solução.

Continuamos olhando para cima, esperando alguém. Ele entende que me desarrumaram, como quem bagunça uma gaveta. Embaralharam as blusas de frio com as de calor, essas que não são usadas há tanto tempo - seja pelo frio dessa primavera invernal ou pela falta daquele calor que aquece a alma, como na música.

Os olhos dele param de olhar o céu e me fitam por alguns segundos. O olhar me responde que falta o sol. Para estender tristezas e roupas escuras, tirando do armário aquele cheiro de roupa seca à sombra. Concordo com a cabeça.

Voltamos a olhar para o alto. Já não sei se procuramos pessoas nas sacadas ou um vestígio de sol. Mais que isso, talvez a esperança de dar de cara com Deus, acenando e dizendo que tudo vai ficar bem.

De repente, lá pelo quinto andar, uma criança aparece e se deita na rede pendurada na sacada. Seguida pela mãe, que toma o pequerrucho no colo e o acarinha. Olhamo-nos surpresos - eu e um senhor maltrapilho, cerca de 50 ou 60 anos, enrolado em um pedaço de manta. Como se realmente houvesse alguma esperança.

São 40 minutos de conversa silenciosa, até que ele diz: "há a vida e a morte - mas ainda estamos vivos". E sai em direção a um passante, para pedir uma ajuda para o café da manhã do dia. Levanto, pego a chave do carro e sigo.

Ainda estamos vivos.


Pelo menos por enquanto...

postado por: Letícia Junqueira - Lady Erinyes 11/7/2005 04:51:34 PM





Terça-feira, Outubro 18, 2005

{ Você decide. Ou não? }



A cor dos olhos, o formato dos cabelos, o tamanho dos seios. Tudo isso não depende de uma escolha sua - ou não dependia, até que se criou a tal ditadura da beleza e da indústria do ser humano perfeito. Agora, o que Deus te deu quando você nasceu e sua carga genética pouco importam para o seu resultado estético final.

Sempre dá pra botar um silicone aqui, colorir as madeixas, botar uma lente de contato. Malhar horas na academia. E corrigir o nariz, preencher os lábios, fazer dieta, puf puf. Se você decidir, pode ser outra pessoa - pelo menos fisicamente.

Tudo depende, basicamente, de escolhas. Assim como o que fazer quando crescer. Ou com quem casar. Isso é, se você realmente quiser se casar. Ou o que comer no almoço, ou mesmo se vai se barbear ou sucumbir à preguiça. Dá pra controlar o riso. Ou o choro.

São decisões demais, algumas tomadas sem nem pensar a respeito. A gente se acostuma mal e começa a achar que dá pra escolher tudo. Mas alguma coisas simplesmente não dá pra parar em frente ao menu, mudar as flechinhas e apertar o enter, dá?

Se a sua genética lhe der toda a tendência a infartar ou a ter um câncer, o máximo que você pode fazer é escolher se cuidar. E se isso não bastar? Hum, aí você descobre que a sua vida não é tão sua quanto você imaginava. Que você pode escolher se vai ter peito ou não, mas não pode escolher se vai morrer de câncer aos 35 ou dormindo, tranquila, aos 98 - mas sabe que estará usando um sutiã 46.

Assim parece simples: a existência está dividida entre as coisas que você decide e as que não pode controlar. E ponto. Ou ponto e vírgula: me atormentam as coisas que eu não sei se são ou não passíveis de escolhas.

Dá pra deixar de gostar de alguém?


Não sei, mas eu queria!

postado por: Letícia Junqueira - Lady Erinyes 10/18/2005 08:11:07 PM





Segunda-feira, Setembro 19, 2005

Ah, esse tal de amor



Falávamos em Pavlov. Reflexos condicionados. Aquele cara que demonstrou que os cães começavam a salivar só de ouvir o sininho que soava antes de cada refeição. E, logo mais, seguiram-se pesquisas com ratinhos brancos e choques. E falávamos de roleta russa, aquela brincadeira (brincadeira?) que se faz com um revólver com uma bala no tambor.

Falávamos de coisas desse tipo, mas estávamos falando de nós mesmos. Estávamos falando de amor. De uma maneira diferente, mas era isso.

De repente me lembra Leminski. Gente que fala de amor falando de outras coisas. Ou de Leoni (e eu odeio Leoni). "Eu tou falando de amor, e não do que você pensa". Mais ou menos isso.

Eu, que andava repetindo que "esse negócio de gostar não presta", me pego de novo apaixonada. Reflexos condicionados de Pavlov? Dizem que isso também funciona com humanos. Que é útil no tratamento de fobias. E eu já ouvi gente dizendo que tem dificuldade de gostar de alguém porque tem um coração burro (como eu, uma semana atrás, prometendo trocar meu órgão cardíaco por um fígado novo no tráfico internacional de órgãos). Mas nunca vi elas não se apaixonarem.

Por mais que você saiba que vai se quebrar, algumas coisas simplesmente têm que acontecer. Como, de repente, a bala na agulha da roleta russa ser sua. Como amar a pessoa errada. Como amar a pessoa certa, mas ela ainda não saber disso. Falávamos de cães, de ratos, de jogos. Mas também falávamos de destino.

E enquanto eu dormia, quentinha com o meu lençol elétrico, eu percebi uma coisa engraçada. Eu me queimei com o lençol. De repente, na minha barriga, cinco linhas vermelhas que nada mais eram que as marcas dos fios térmicos do tal lençol. E nem tinha percebido. Tá, e daí?

Daí que é bom estar quentinha e abrigada. E vale arriscar me queimar pra ter essa sensação. E, portanto, se tudo vai dar errado daqui a cinco minutos, eu quero mais é que se exploda. Eu gosto de estar sorrindo agora.

Falávamos de amor, mas também falávamos de tempo. O futuro? Ah, o futuro e o passado não existem, foi o que eu ouvi dizer. Assim como fantasmas. Mas há quem jure ter presenciado - passado e fantasmas e futuro.

Cães de Pavlov. Ratos brancos da Psicologia. Reflexos condicionados. Quantos choques elétricos eles tomaram antes de aprender a lição?

Falávamos de tanta coisa, mas tudo o que queríamos era ficar em silêncio.


sorte no jogo
azar no amor
de que me serve
sorte no amor
se o amor é um jogo
e o jogo não é o meu forte,
meu amor?
Paulo Leminski



Aaai ai...

postado por: Letícia Junqueira - Lady Erinyes 9/19/2005 06:46:05 PM





Quinta-feira, Agosto 18, 2005

{ Sem título }



O primeiro a gente nunca esquece. É o que dizem. O primeiro qualquer coisa: dia de aula, amor, tapa na cara, namorado, beijo, salário. Até o primeiro canalha.

E eu já não me lembro mais de primeiras vezes que deviam ser importantes. Já esqueci como foi meu primeiro banho de chuva, daqueles que a gente toma quando criança, no fundo de casa. Não lembro mais da primeira dor de amor. Nem quem foi o primeiro a dizer que me amava.

Eu não sei dizer quando foi a primeira vez que eu deitei na grama e olhei as nuvens fazendo formatos. Nem quando foi que eu acertei a receita de bolo de chocolate.

Mas posso falar sobre as últimas vezes. E é o que me faz abrir um sorriso, mesmo quando a lembrança não é das melhores. É o que me faz querer - ou não - tudo isso de novo.

A primeira vez pode até ser importante, mas não devia ser mais que a última.

E a última vez que eu sorri foi agora...


postado por: Letícia Junqueira - Lady Erinyes 8/18/2005 10:13:06 PM





Domingo, Julho 31, 2005

{ É só teu coração que não te deixa amar* }



As luzes desfocadas. De várias cores, mas a maioria amarelas, vermelhas e brancas. Logo descontraía o músculo dos olhos e eles voltavam a ficar em posição normal. O bruxulear das luzes parava, voltando a ser somente o que eram: faróis de carros, postes e estrelas.

Era assim que ela se divertia quando criança. Brincava de não ver o mundo real, com cores reais e acontecimentos reais. Tudo isso era chato demais. Então ela movia os olhos e perdia o foco das imagens que via. E, em meio às luzes desfocadas, podia ser o que ela quisesse. Astronauta concentrado num ataque intergaláctico, cantora num cabaré, turista passeando em Tóquio.

Só que ela cresceu. E continuou a achar o mundo sem graça. Então, quando tudo dá errado, ela muda tudo o que vê. Às vezes esquece de voltar para a vida real. Continua achando que o cara com quem sonha quer alguma coisa a mais com ela, além de algumas noites divertidas. Acredita que ele pode finalmente descobrir que ela é a mulher perfeita para ele.

Lá no fundo, ela sabe que nada disso é verdade. Ah, mas como queria que fosse. Então continua a desfocar o que vê e a enxergar um mundo repleto de imagens que dançam ao som da música que toca no rádio do carro.

*trecho da música "tá bom", do los hermanos

Talvez seja hora de crescer...

postado por: Letícia Junqueira - Lady Erinyes 7/31/2005 05:51:03 PM





Quinta-feira, Julho 21, 2005

{ Eu existo }



Faz dois anos que esse blog existe. Faz dois anos que eu escrevo aqui, embora nos últimos meses com uma periodicidade meio a desejar. Mas tudo bem, isso não vem ao caso agora. O que vem ao caso nesse momento é que eu, que sempre assinei Lady Erinyes, passo a ter um nome. E uma cara. E uma página no Orkut. E essas coisas todas que as pessoas têm.

Isso provavelmente dê fim num pedaço da magia. Talvez não seja tão divertido ser só eu. Mas juro que vou tentar.

Aliás, já que esse é o momento de promessas, prometo atualizar com mais freqüência (hum, acho que já prometi isso antes). Mas dessa vez eu tenho um bom motivo. Agora eu escrevo num meio impresso, que as pessoas poderão ler daqui a 130 anos se o jornal não derreter e as traças não comerem. E isso me dá medo, mas existem coisas que simplesmente precisam ser feitas.

Agora eu tenho um nome: Letícia Junqueira. E, a quem interessar possa, e a quem ache o jornal pra comprar, toda terça-feira no Hora H, de Curitiba.

Textos novos e (relativamente) decentes em breve. Eu juro que sim.

Que tal vocês existirem também e dizerem "oi"?

postado por: Letícia Junqueira - Lady Erinyes 7/21/2005 09:59:58 AM





Terça-feira, Maio 17, 2005

{ Do prazo de validade das coisas }



Quando se mora sozinha, aprende-se uma coisa sobre prazos de validade. Eles não valem quase nada. Afinal, com uma pessoa só em casa, é meio complicado fazer um litro de leite ir embora em 3 dias ou consumir um litro de suco em 2 dias.

O nariz vira aliado. A coragem, pré-requisito mais que necessário. Se o cheiro tá bom, você arrisca virar um tanto no copo e dar um golinho. Mas já fica preparada pra fazer careta se estiver com gosto de podre. Se parece normal, você toma o copo inteiro, meio sem pensar se isso vai fazer mal depois.

E nesse cheira-arrisca cotidiano, chega uma hora em que se começa a cheirar relacionamentos. Pessoas. E ver se ainda dá pra insistir mais um pouquinho, mesmo que saiba que o prazo de validade já venceu. Às vezes, o gosto chega até a ser um pouco diferente do habitual, mas você engole entoando o difundido mantra "o que não mata engorda".

Sabe-se lá se por preguiça ou simplesmente porque você se ilude pensando que aquilo pode parecer tão bom como foi um dia... quando você se dá conta, tá tomando leite velho. E beijando pessoas que já azedaram.

Insistir no que